Roteiro de 5 dias de viagem de mota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês

Viagem de mota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês

Não é por acaso que ao longo das nossas vidas rumámos ao Parque Nacional da Peneda Gerês inúmeras vezes. Em tenra idade, guiados pelo instinto descobridor dos nossos pais, e em adultos das mais variadas formas: pelos trilhos pedestres em botas de caminhada ou pelos percursos fora de estrada em quatro rodas. Mais tarde, revivendo muitas estradas panorâmicas e descobrindo tantas outras, em duas rodas.

Qual a forma ideal de visitar o parque natural? Conciliado todas, se possível! Agora? Agora voltamos de mota, pois claro! E este é um roteiro de roda no alcatrão, com muitas sugestões para despir o fato de motociclista e explorar os recantos mágicos de uma das mais belas serras de Portugal. Não importa quantas vezes lá voltaremos, haverá indubitavelmente em todas elas, um local inexplorado a surpreender-nos.

Viagem de mota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês
Viagem de mota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês
Parque Natural Peneda Gerês
Parque Natural Peneda Gerês

Um refúgio serrano

Pela Peneda Gerês encontramos um encantado refúgio onde o Homem e a Natureza coabitam em perfeita sintonia há séculos. Estamos em terras nortenhas, onde o povo é genuinamente amistoso e nos devolve um sorriso rasgado ao primeiro encontro, trocando ali mesmo dois dedos de conversa animada. Um povo de coração nobre, muitas vezes de feições marcadas pela vida do trabalho no campo, gente de força e de alma generosa.

Ao longo do roteiro, saltam-nos ao caminho, monumentos megalíticos, castelos medievais, mosteiros e santuários, aldeias que nos fazer recuar no tempo, miradouros de vistas avassaladoras e muitos, muitos restaurantes regionais para saborear um belo repasto. Unimos todos eles e partilhamos agora em detalhe, uma rota curvilínea pelas melhores estradas para andar de mota no Parque Nacional da Peneda Gerês.

Viagem de mota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês
Portas do Mezio, Soajo
Parque Natural Peneda Gerês
Aldeias de casario de pedra
Aldeias de casario de pedra
Parque Nacional da Peneda Gerês

Sobre o Parque Nacional da Peneda-Gerês

O Parque Nacional da Peneda Gerês está localizado no noroeste de Portugal, entre as regiões do Alto Minho e Trás-os-Montes. Estende-se por uma imensa área natural prodigiosa, por onde quilómetros e quilómetros de estradas panorâmicas se estendem. Daquelas que preenchem a nossa lista das melhores estradas de Portugal para percorrer de mota, e nos ficam cravadas nas memórias dos locais mais belos que visitámos na vida.

Esta é a única zona protegida portuguesa classificada como Parque Nacional. Do seu território fazem parte os concelhos de Melgaço, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e Terras de Bouro (no extremo Oeste, região do Alto Minho) e Montalegre (no extremo Este, região de Trás-os-Montes). Este último, esquecido muitas vezes quando o parque nacional se visita, guarda em si cenários distintos e surpreendentes, que merecem não ser deixados para trás num roteiro pela região.

A área protegida em território português, forma um conjunto com o parque natural espanhol da Baixa Limia, Serra do Xurés, que desde 1997 constitui o parque transfronteiriço e reserva da Biosfera Gerês-Xurés. Desta vez, centramos-nos na parte portuguesa com certeza.

O Parque Nacional da Peneda-Gerês é uma zona de relevo fortemente acidentado, muito variável e feito de pronunciados declives . Por lá, os afloramentos rochosos graníticos são dominantes, atingem dimensões e formas únicas, e enquadram em cada curva um belo roteiro de viagem de mota.

Miradouro de Tibo, Serra da Peneda
Miradouro de Tibo, Serra da Peneda
Parque Natural Peneda Gerês
Parque Natural Peneda Gerês

Serra de muitos rios

O maciço granítico na Peneda-Gerês é atravessado pelos rios Minho, Lima, Homem e Cávado, assim como pelos seus inúmeros afluentes. Todos eles individualizam as diferentes serras integradas no Parque Natural: a Serra da Peneda, definida pelos rios Minho e Lima; a Serra do Soajo e Serra Amarela, definidas pelos rios Lima e Homem; e a Serra do Gerês definida pelos rios Homem e Cávado.

Com estas características, escusado será dizer que por lá se encontram incontáveis paraísos naturais, escondidos nas florestas. Feitos de muitos rios e ribeiros que fluem montanhas abaixo, precipitam sob a forma de majestosas cascatas e repousam na calmaria de lagos cristalinos, lagoas verde esmeralda e imensas barragens. A Caniçada, Vilarinho das Furnas, Portela do Homem ou Paradela são algumas das grandes barragens que se encontram pelo parque natural da Peneda-Gerês. A água é um dos elementos dominantes.

Percorrendo as estradas entre as encostas da serra, avistam-se os garranos. Pequenos cavalos selvagens que correm livremente pelas montanhas. Bovinos da raça barrosã e cachena pastam pelos campos, deslocando-se entre estações das brandas para as inverneiras. Sempre guardados, dos lobos ibéricos e de outros perigos, pelos cães de Castro Laboreiro, guardiões do rebanho que se irritam particularmente com o ecoar do nosso motor. Seguimos com prudência, afinal somos apenas uns intrusos na sua casa e estamos a ter o privilégio de a visitar.

A cachena na Serra do Soajo
A cachena na Serra do Soajo
Garranos nos planaltos de Germil, Peneda Gerês
Garranos nos planaltos de Germil, Peneda Gerês
Albufeira do rio Cávado
Albufeira do rio Cávado

Dia 1 – Amares – Santuário Nossa Senhora da Abadia – Terras de Bouro – Ponte da Barca – Soajo | 70 km em 2h em estradas secundárias

Independentemente da zona do país onde se insere, do primeiro dia fará parte a inevitável viagem até ao Noroeste de Portugal. Tomamos o caminho mais rápido desde a Batalha, na zona centro do país, até ao Parque Natural da Peneda-Gerês e rumámos ao seu extremo oeste: região do Alto Minho. 

Qual o destino final do dia? Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Amares, Sistelo, Tangil ou Soajo. Qualquer um destes locais, será uma excelente opção para pernoitar por, pelo menos, duas noites. Destinando roteiros circulares para explorar as entranhas das Serras da Peneda, Soajo e Amarela, onde as estradas panorâmicas se multiplicam. Desta vez a nossa opção para pernoitar foi o Soajo. 

Porquê o Soajo? Pela consulta de disponibilidade e preços de estadias para as nossas datas e por ser aldeia mais a sul que nos permitia um roteiro circular sem repetir estradas. Não é que repetir estradas seja má ideia, muito pelo contrário, mas esta foi a nossa opção para optimizar o roteiro.

Parque Nacional da Peneda Gerês
Entrada no Soajo

Terras de Bouro e a chegada às montanhas

A chegada à Peneda Gerês é sempre um momento fabuloso, não importa quantas vezes já tenhamos cruzado os seus domínios. Em todas elas encontramos ambientes distintos, igualmente encantadores, como se de um novo local se tratasse. Uns de sol, outros de chuva, outros entre o sol e a chuva; estes últimos, os nossos preferidos. Aqueles em que o céu carregado de um lado e limpo do outro se encontra algures pelo meio, repleto de nuvens brancas luminosas, quase como uma visão a 3 dimensões no horizonte. Com aquela luz que torna qualquer cenário resplandecente e nos remete a locais tão distantes como o Norte da Europa.

Ainda não eram 4 horas da tarde e, depois de um almoço na região de Amares, no Restaurante Recanto da Minhota, seguíamos pelas pequenas estradas labirínticas dos arredores. Sem uma rota exacta traçada, o caminho para o destino final do dia fazia-se pelas orientações do GPS, que com certeza seguia o algoritmo motociclístico da rota mais sinuosa. Já tínhamos perdido o rumo, os pontos cardeais eram agora difíceis de identificar tamanhas voltas e voltinhas por entre pequenas aldeias e vinhedos da região. Até que Terras de Bouro surge na placa seguinte. O nome familiar leva-nos a desobedecer a instrução do GPS e por lá seguir, para a subida às montanhas revestidas pelos granitos monstruosos que por lá afloram. Estávamos agora na primeira das melhores estradas que percorreríamos pelo Gerês.

Parque Natural Peneda Gerês
Terras de Bouro
Parque Nacional da Peneda Gerês
Terras de Bouro, Serra Amarela. Parque Nacional da Peneda Gerês
Serra do Soajo, Parque Nacional da Peneda Gerês
Serra do Soajo, Parque Nacional da Peneda Gerês

Ponte da Barca

Situada à beira do rio Lima e envolvida pela Serra Amarela, Ponte da Barca é uma vila tipicamente minhota, de ruas cuidadas e casas tradicionais, maioritariamente feitas de pedra. No seu centro histórico é a ponte sobre o Lima que se destaca a partir de qualquer ponto, com os seus elegantes arcos.

O caminho para o Soajo pode ser feito pela estrada N203 que se prolonga até à fronteira espanhola à beira rio. Mas revisitando a região, optámos sempre por fugir dos trajectos principais, dando lugar às pequenas estradas menos divulgadas. Permitindo que nos surpreendessem e apresentassem um novo mundo. É em muitas destas vezes que encontramos locais maravilhosos, que jamais ali imaginaríamos.

Ponte da Barca
Ponte da Barca

A aldeia do Soajo e os seus espigueiros

Chegados ao Soajo, somos recebidos pela sinalética de boas vindas. Já no final da tarde, os vinhedos em redor apresentavam já os tons dourados do pôr-do-sol. O Soajo é uma tradicional aldeia instalada na serra com o mesmo nome e os picos da montanha que espreitamos como pano do fundo, fazem-nos antever uma sugestiva rota para o dia seguinte.

Localizada a curtos quilómetros de uma das portas do Parque Nacional da Peneda Gerês, a Porta do Mezio, o Soajo concentra lagoas, cascatas, miradouros de cortar a respiração, os seus espigueiros para secar o milho e uma suculenta gastronomia. As ruelas entre casario de pedra que pedem uma caminhada de final do dia, rumo a um dos seus soberbos restaurantes. O dia terminou à mesa do Restaurante Saber ao Borralho.

Espigueiros do Soajo
Espigueiros do Soajo
Visita aos Espigueiros do Soajo
Visita aos Espigueiros do Soajo

O que visitar no Soajo?

  • Espigueiros do Soajo
  • Cascatas do Soajo
  • Poço Negro
  • Cascatas Poço Bento
  • Miradouro Meandros do Lima
  • Miradouro do Coto Velho
  • Anta do Mezio
  • Parque Porta do Mezio

🛏️Sugestão de Alojamento no Soajo

🍽️Sugestão de Restaurante 

🛏️Sugestão de Alojamento em Ponte da Barca ou Tangil

🍽️Sugestão de Restaurante em Ponte da Barca

Dia 2 – Porta do Mezio – Miradouro do Coto Velho – Sistelo – Tangil – Porta de Lamas de Mouro – Castro de Laboreiro – Senhora da Peneda – Miradouro da Várzea – Soajo | 150 km em 4,5h em estradas secundárias

Porta do Mezio

A Porta do Mezio é uma das cinco portas existentes no Parque Nacional da Peneda Gerês. Por aqui, além de uma rota de monumentos megalíticos, como a Anta do Mezio junto à estrada principal, encontramos um ponto de partida para desfrutar da serra, dos muitos vales, montanhas, vilas e aldeias encantadas da serra do Soajo e da Peneda. Um território tão magnífico que a UNESCO o considera Reserva Mundial da Biosfera. E é um território tão nosso, tão português! Vamos explorá-lo tanto quando podermos.

Anta do Mezio
Anta do Mezio
Estrada N202 Porta do Mezio, Serra do Soajo
Estrada N202 Porta do Mezio, Serra do Soajo
Estrada N202 Porta do Mezio, Serra do Soajo
Serra do Soajo. Estrada N202

Seguimos para o Sistelo, a aldeia que é considerada como o Tibete português pelos seus socalcos verdejantes que se prolongam pelas encostas aninhadas na Peneda. O Miradouro dos Socalcos é um ponto imperdível no roteiro que nos leva a entrar e sair do parque natural, em busca de tantas estradas panorâmicas quanto possível.

O que visitar no Sistelo

  • Branda do Alhal
  • Miradouro dos Socalcos (acesso pavimentado)
  • Passadiços do Sistelo (Ecovia do Vez)
  • Praia Fluvial do Sistelo

Porta de Lamas de Mouro

Voltamos ao parque natural pela Sra da Guia e Gave, rumo à Porta de Lamas de Mouro. Por aqui encontrámos outra das melhores estradas de todo o roteiro. Aquela que avança pela floresta densa de pinheiros altos e esguios. Lembrando-nos por momentos a nossa viagem pela Finlândia, nos confins da Europa. O dia, apesar de soalheiro, estava fresco e no alto da montanha o nosso fato de Inverno oferecia-nos um aconchego à gélida brisa que se fazia sentir.

Gave, Serra da Peneda
Gave, Serra da Peneda
Porta de Lamas de Mouro
Porta de Lamas de Mouro
Serra da Peneda, Parque Nacional da Peneda Gerês
Parque Nacional da Peneda Gerês

Espreitamos nas colinas os imensos acessos fora de estrada por onde outrora andámos em 4 rodas. O parque natural é também um mundo soberbo de percursos fora de estrada. Em redor pastam os garranos, os cavalos selvagens que abundam pela região e parecem desfrutar particularmente deste local.

Ora entre floresta cerrada, que nos cria um túnel verde por entre a estrada, ora entre clareiras imensas que nos abrem os horizontes para os planaltos de rochedos, avançamos sobre rodas pelo paraíso natural que é a Serra da Peneda. Entre descidas e subidas curvilíneas, a estrada avança pela montanha com o precipício ao nosso lado, naquele que é um traçado em modo de balcão panorâmico.

Chegamos a Lamas de Mouro num planalto de brandas onde os animais aproveitam os dias de sol. Castro de Laboreiro aguarda por nós ali ao lado. São quase horas de almoço e ouvíramos falar que por lá o cabrito assado é uma das especialidades gastronómicas.

Serra da Peneda
Serra da Peneda
Aldeias aninhadas na Serra da Peneda
Aldeias aninhadas na Serra da Peneda

Castro de Laboreiro

Castro de Laboreiro é uma tradicional vila do concelho de Melgaço, situada na Serra da Peneda e já de olhos na vizinha Espanha. Com origens bem remotas, e um castelo a dominar o promontório rochoso da região, é também conhecida pela raça de cães pastores de Castro de Laboreiro, que por lá são criados. Espigueiros, fornos comunitários e moinhos são ainda bem presentes na comunidade que se adaptou para resistir à dureza de um território de difícil acesso e rigorosos Invernos.

Por lá encontramos importantes legados históricos, que testemunham a passagem por diversas comunidades desde épocas tão distantes como o período pré-românico. Do Pelourinho Manuelino à Ponte Romana da Cava da Velha, do Castelo de Castro Laboreiro à Ponte Celta. Património para visitar não falta e por aqui perdemos algumas horas do nosso roteiro. Por Castro de Laboreiro respiramos o ar puro da montanha envoltos em muita riqueza cultural, arquitectónica e gastronómica.

Serra da Peneda, Parque Nacional da Peneda Gerês
Castelo de Castro de Laboreiro, Parque Nacional da Peneda Gerês
Castelo de Castro de Laboreiro
Castro de Laboreiro
Castelo de Castro de Laboreiro
Muralhas do Castelo de Castro de Laboreiro
Ponte da Cava da Velha
Ponte da Cava da Velha

É à mesa do Restaurante Miracastro que ganhamos energias para a subida ao castelo, com vista panorâmica para o horizonte que espreitamos da janela da nossa mesa. O cabrito assado e o bacalhau são as especialidades da casa que nos chamam a por lá estacionar a mota para um manjar dos deuses.

Restaurante Miracastro
Restaurante Miracastro
Restaurante Miracastro
Especialidade regional no restaurante Miracastro

O que visitar em Castro de Laboreiro?

  • Castelo de Castro de Laboreiro
  • Igreja de Santa Maria da Visitação
  • Cascata de Castro Laboreiro
  • Ponte da Cava da Velha (Aldeia de Assureira)
  • Ponte Romana de Dorna (Aldeia de Pontes)

Informações práticas para visitar Castro de Laboreiro

Castelo de Castro de Laboreiro

  • Tempo de caminhada: 20 minutos (para cada lado)
  • Preço: Gratuito

Ponte da Cava da Velha

  • Tempo de caminhada: 5 minutos (para cada lado)
  • Preço: Gratuito
  • Localizada a cerca de 2 km de Castro de Laboreiro

🍽️Sugestão de Restaurante em Castro de Laboreiro

Santuário de Nossa Senhora da Peneda

Na freguesia da aldeia de Gavieira, está o imponente Santuário de Nossa Senhora da Peneda a conquistar o seu lugar na Serra da Peneda. Construído ao lado de um avassalador afloramento rochoso de alturas que tocam os céus, feito de paredes quase verticais que lhe servem como abrigo, o Santuário da Sra da Peneda foi erguido para lembrar a aparição da Sra da Peneda, cujo culto motivou a construção do edifício nos finais do século XVIII.

Um escadório imenso encaminha-nos à entrada principal da igreja, por entre elegantes estátuas que simbolizam a Fé, a Esperança, a Caridade e a Glória. E, no final de tamanha subida, diríamos que simbolizam também o cansaço, especialmente quando dentro dos nossos fatos. Valeu-nos a D. Maria dos bolinhos, que vende os seus bolinhos caseiros, pães e broas na entrada do santuário. Ali, depois de uns minutos de animada conversa, recuperamos o fôlego e entramos na igreja.

Santuário de Nossa Senhora da Peneda
Santuário de Nossa Senhora da Peneda
Lamas de Mouro
Lamas de Mouro
Estrada M503 Miradouro de Tibo, Serra da Peneda
Estrada M503 Miradouro de Tibo, Serra da Peneda
Estrada M503 Miradouro de Tibo, Serra da Peneda
Miradouro de Tibo, Serra da Peneda

Miradouro da Várzea

Podíamos traçar uma rota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês que passasse apenas por miradouros. São imensos e percorrê-los a todos é difícil numa só vida.

Saímos do santuário, com melindres (bolinhos secos) nas bagagens rumo ao Soajo, destino final do dia. Não sem antes espreitar a pequena estrada que nos chamou a atenção no mapa Michelin. Quase imperceptível, mas situada numa zona de relevo pronunciado, faz-nos antever que por ali poderemos encontrar aqueles paraísos motociclísticos que tanto nos enchem a alma. Não é que encontrámos mesmo? Na pequena aldeia de Adrão, seguimos a estreita estrada que passa despercebida. Entramos na M530 que terminaria no Soajo, mas com passagem na cumeada da montanha que enquadra as melhores vistas panorâmicas para a barragem do Lindoso e o rio de Castro de Laboreiro. Espanha está na outra margem.

Uma ligeira inclinação entre curvas pronunciadas, entre largos horizontes cobertos de vegetação rasteira por onde espreitamos os chifres pontiagudos dos bovinos que pastam na montanha. Estamos em altitude e todo este soberbo percurso é por si só um miradouro em toda a sua extensão. A pequena aldeia da Várzea repousa no sopé, de olhos postos em nuestros hermanos.

Estrada M530 Serra da Peneda
Estrada M530 Serra da Peneda
Estrada M530 Serra da Peneda
M530 Serra da Peneda
Estrada M530 e o miradouro para o rio Castro Laboreiro
Miradouro da Várzea
Estrada M530 e o miradouro para o rio Castro Laboreiro
Estrada M530 e o miradouro para o rio Castro Laboreiro

Dia 3 – Soajo – Lindoso – Ermida – Germil –  Brufe – Vilarinho das Furnas – Gerês – Mata da Albegaria – Portela do Homem – Gerês  | 100 km em 3h em estradas secundárias

Castelo e Espigueiros do Lindoso

À semelhança dos espigueiros do Soajo, também Lindoso merece uma paragem para apreciar os seus espigueiros em torno do castelo. Os Espigueiros do Lindoso são os únicos da região que se encontram concentrados em maior número. Geralmente, encontramos muitos pela região, mas nunca mais de meia dúzia espalhados pelas aldeias. Aqui, estão cerca de 50 espigueiros dos séculos XVII e XVIII, todos em pedra e assentes na rocha.

Com coberturas de pedra, vértices ornamentados com cruzes protectoras e fendas verticais, sabiamente dispostas para permitir arejar o milho de forma a não apodrecer. São monumentos da arquitectura portuguesa, que continuam a ser utilizados e mantêm um soberbo estado de preservação.

Espigueiros do Lindoso
Espigueiros e Castelo do Lindoso
Espigueiros do Lindoso
Castelo de Lindoso

Ermida e Germil e os Fojos dos Lobos

Seguimos novamente para as montanhas pela já habitual paisagem granítica que por ali abunda. Não cansamos de a apreciar. Aquela peculiar forma de erosão confere às paisagens uma beleza distinta e rara. Rumo a Germil, com um desvio  ao coração da Serra Amarela até Ermida, a aldeia perdida na serra.

CM1348 em Germil, Serra Amarela
Cruzamento com a estrada CM1348 Serra Amarela
CM1348 em Germil, Serra Amarela
CM1348 em Germil, Serra Amarela

Isolada, entre socalcos verdejantes por lá encontramos as construções seculares dos nossos antepassados que lhe preservam a autenticidade. Estamos agora na rota do lobo ibérico e o caminho até ali é dos mais espectaculares que encontrámos por Portugal. 

A estrada entre Lourido até Ermida é um percurso avassalador por entre montanhas, de olho no pronunciado vale escavado pelo ribeiro de Carcerelha e pelo rio Froufe, ambos afluentes do Lima. Sinuoso, estreito e com poucos locais na berma que permitam uma paragem, vale-nos o pouco movimento que por lá se sente para estacionar no meio do caminho com tempo para apreciar o horizonte. Várias cascatas fluem vigorosas da montanha, o precipício, ali ao nosso lado, está coberto de uma exuberante vegetação e o curso principal de água mal se distingue por entre o arvoredo.

CM1349 acesso a Ermida
Estrada CM1349 acesso a Ermida
CM1349 acesso a Ermida
CM1349 acesso a Ermida
CM1349 acesso a Ermida
Última parte pavimentada na CM1349 acesso a Ermida
CM1349 acesso a Ermida
Serra da Amarela, a caminho de Ermida

Ganhamos altitude e, apesar de sabermos que estamos em terras de lobos, só tomamos essa consciência com a passagem pelos fojos dos lobos por ali existentes. Os fojos são as armadilhas seculares onde dois muros de pedra em forma de V encaminhavam os lobos para um buraco sem saída onde eram caçados. Hoje, são uma espécie protegida e, para o desagrado dos pastores da região, têm vindo a aumentar.

Fojo do Lobo de Germil
Fojo do Lobo de Germil

Voltas de São Bento

Deixamos para trás a Serra Amarela e vamos agora a caminho de Brufe e Vilarinho das Furnas, uma das mais imponentes barragens da região, com destino à vila do Gerês. De entrada na Serra do Gerês, é pela curvilínea estrada M533 que recomendamos que se faça a descida. Contrariando a tendência de percorrer a menos interessante e muito movimentada N304 por São Bento da Porta Aberta.

Estaremos num cenário alpino? Pois assim nos parece. A M533 é uma estrada panorâmica exuberante, de excepcional qualidade que nos leva a conhecer algum dos mais belos miradouros naturais de todo o parque natural: estamos nas Voltas de São Bento, com vista privilegiada para a albufeira do rio Cávado.

Descemos para o vale e para a vila termal do Gerês. Por lá espera-nos uma farta e apetitosa refeição no Restaurante Pensão Adelaide. Naco de vitela com grelos e alheira no forno foi o que nos recomendaram. E quem o fez sabia do que falava. Já estamos a salivar.

estrada M533
Miradouro Voltas de São Bento
Estrada M533 – Voltas de São Bento
estrada M533
Albufeira do Cávado da Estrada M533

Mata da Albergaria

Apesar de se encontrar na rota mais conhecida do Parque Natural da Peneda Gerês, fazer o percurso de floresta pela Mata da Albergaria é conhecer uma idílica rota, por entre uma luxuriante vegetação e é um local a não perder. Mesmo que implique regressar pelo mesmo caminho. Um túnel verde natural, uma frescura e humidade permanentes e muitos riachos e cascatas ali estão. A Cascata da Portela do Homem é uma delas, ali bem perto da fronteira espanhola. Do outro lado, está a praia fluvial de Lobios, uma estância termal de água quente.

Cascata da Portela do Homem
Cascata da Portela do Homem
Mata da Albergaria
Mata da Albergaria

⚠️Acesso à Mata da Albergaria

Entre os dias 1 de Junho a 30 Setembro de cada ano, a passagem na estrada de acesso à Mata da Albergaria é cobrada a viaturas. Segundo a Portaria n.º 31/2007:1.º A entrada de viaturas motorizadas na área abrangida pela Reserva Biogenética da Mata de Albergaria através da estrada florestal de Leonte até Portela do Homem e da estrada florestal de Bouça da Mó até ao entroncamento com a estrada anterior está sujeita ao pagamento de taxa de acesso no valor de (euro) 1,50 por dia de circulação.

🛏️Sugestão de Alojamento no Gerês

🍽️Sugestão de Restaurante no Gerês

Dia 4 –  Gerês – Fafião – Cabril – Xertelo – Outeiro – Pitões das Júnias | 120 km em 2 h em estradas secundárias

N308 e EM308 Fafião – Paradela

Quando dizemos que explorar a zona este do Parque Natural da Peneda Gerês é um rumo pouco tomado pelos visitantes é porque notamos, com alguma surpresa, que o único motivo possível terá de ser por desconhecerem tamanha a espectacularidade da região.

Por esse motivo, este é também um percurso de pouco movimento, repleto de estradas vazias que nos dão espaço para as desfrutar em plena liberdade. Pensando bem, é tanta a falta de movimento que as cabras e vacas dormitam no meio da estrada. Guardadas pelos cães pastores que nem sempre nos recebem tranquilamente.

Por aqui, multiplicam-se também as cascatas de águas gélidas verde esmeralda, as lagoas e os muitos trilhos que nos pedem uma caminhada. Apesar de em muitos deles ser possível a passagem com um veículo apropriado a fora de estrada, há que considerar que estamos em pleno parque natural e a circulação de veículos a motor é condicionada e sujeita a autorização. Nós, com uma mota de estrada, visitámos a Cascata do Tahiti com uma pequena escalada. Sem capacete.

EM308
Serra do Gerês Estrada EM308 entre o Cabril e a Paradela
Serra do Gerês Estrada EM308 entre o Cabril e a Paradela
Estrada EM308 entre o Cabril e a Paradela
Cascata do Tahiti
Acesso à Cascata do Tahiti

Neste dia, sugerimos que as roupas de banho e as toalhas de praia façam parte das bagagens. Seja pela Cascata do Arado, do Tahiti ou de Cela Cavalos, esta é a zona ideal para um mergulho com tons paradisíacos. Estacionar por umas horas nos dias quentes é obrigatório.

Pitões das Júnias

No final do roteiro pelo parque nacional, está Pitões das Júnias. Situada a cerca de 1200 metros de altitude, a aldeia de Pitões das Júnias está totalmente inserida no Parque Nacional da Peneda Gerês e corresponde ao local geográfico que delimita o seu extremo este.

De relevo variável, a região destaca-se entre um planalto de vegetação rasteira típica de zonas glaciares, rodeada por picos rochosos imponentes que anunciam a fronteira com Espanha, ali ao lado. Por lá sugerimos que termine o dia explorando a Cascata de Pitões das Júnias e o Mosteiro de Santa Maria das Júnias. De preferência com um repasto no Restaurante Casa do Preto.

Região do Barroso, Alto Rabagão
Pitões das Júnias
Mosteiro de Santa Maria das Júnias
Mosteiro de Santa Maria das Júnias

Locais a visitar na Serra do Gerês

  • Miradouro da Pedra Bela
  • Cascata do Arado
  • Cascata do Tahiti
  • Ponte da Misarela e Miradouro da Ponte da Misarela
  • Porto da Laje (trilho fora de estrada)
  • Cascata de Cela Cavalos
  • 7 Lagoas do Xertelo (trilho fora de estrada)
  • Moinhos de água de Paredes do Rio

🛏️Sugestão de Alojamento em Pitões das Júnias

🍽️Sugestão de Restaurante em Pitões das Júnias

Dia 5 – Pitões das Júnias – Alto Rabagão | 70 km em 1h em estradas secundárias

Depois de explorar as atracções de Pitões da Júnias este é o dia de terminar o percurso pelo Parque Nacional da Peneda Gerês. Seja de regresso a casa ou conciliando dias por outro destino, sugerimos que não deixe a região sem explorar o, ali ao lado, Alto Rabagão.

Barragem do Alto Rabagão
Estrada panorâmica em torno do Alto Rabagão

Consulte aqui o roteiro detalhado: Barragem do Alto Rabagão, o Alqueva do Norte | Entre Vilarinho de Negrões, Montalegre e Pitões das Júnias

Informações práticas para visitar o Parque Nacional da Peneda Gerês

Quando ir

Viajar de mota até ao Parque Nacional da Peneda Gerês é possível durante todo o ano. Pontuais limitações no Inverno poderão ocorrer nas terras mais altas por causa da queda de neve e geadas, mas essa é cada vez mais uma situação pouco recorrente. De qualquer forma, entre os meses de Novembro a Março, recomendamos que uma viagem até à zona seja feita à base de uma consulta das previsões meteorológicas de última hora. Pois são também épocas com elevado nível de precipitação.

Os meses de Primavera (Março a Junho) e Outono (Setembro a Novembro), são as épocas ideais para visitar o Parque Nacional da Peneda Gerês com uma maior probabilidade de dias soalheiros e temperaturas amenas, mais agradáveis para andar de mota.

Por sua vez, se compatibilizar uma viagem de mota com os banhos em cascatas e praias fluviais, o pico do Verão é sem dúvida o mais indicado (Julho e Agosto, por vezes Setembro). Estes são também os meses com mais movimento na região e com preços de estadias mais elevados. Se pretende viajar nestas datas, recomendamos a reserva de alojamento com alguma antecedência. (Ver aqui as nossas dicas para poupar em viagens).

Quantos dias

Recomendamos um mínimo de 5 dias para um roteiro que percorre toda a extensão do Parque Nacional da Peneda Gerês. Duração esta que pode ser estendida consoante a disponibilidade de cada um. Pela Peneda-Gerês é fácil estender um roteiro a mais dias, se pretender compatibilizar uma viagem de mota com outras actividades: trilhos pedestres, praias fluviais ou banhos em cascatas e lagoas. Ou simplesmente fazer um roteiro mais relaxado.

O roteiro acima apresentado considera uma média de 4 horas de condução diárias. Tendo em conta que a maioria das estradas sugeridas são pequenas e sinuosas, consideramos um tempo equilibrado para aproveitar o dia de condução, parando com tempo nos locais de interesse paisagístico e histórico que nos surgem pelo caminho. Chegando no final da tarde aos alojamentos eleitos, com tempo para caminhar pelos arredores das aldeias, fora dos nossos fatos de motociclistas.

Mapa do Percurso pelo Parque Nacional da Peneda Gerês

Para consultar o mapa em detalhe, clique sobre ele ou utilize o canto superior direito para abrir directamente na página do Google Maps. Poderá fazer o zoom necessário para ver a rota em pormenor ou exportar para o GPS como preferir. Clicando no canto superior esquerdo, é também possível ler a legenda do mapa em detalhe.

Total de quilómetros aproximados: 500 km  (somar a distância a partir do local de partida/chegada)

Tempo mínimo sugerido: 5 dias 

Sugestão para outros roteiros de viagem de mota compatíveis:

⬅️ Etapa anterior: Roteiro pelo Parque Natural do Alvão e Estrada N304 | Portugal 

➡️ Etapa seguinte: Barragem do Alto Rabagão, o Alqueva do Norte | Entre Vilarinho de Negrões, Montalegre e Pitões das Júnias

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2 Replies to “Roteiro de 5 dias de viagem de mota pelo Parque Nacional da Peneda Gerês”

  1. José António da Costa Morgado says: Responder

    Excelente! Obrigado aos Câmara! Boas sugestões para começar a Andar de Mota Novamente!

    1. quilometroinfinito says: Responder

      Obrigado José Morgado! Já tinhamos sentido a sua falta por aqui. Está tudo bem? Aconteceu algo? Beijinhos e abraço nossos

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