Há uma longa história por detrás do impulso de última hora que nos fez embarcar numa grande viagem pelos USA. História essa, que um dia contaremos por aí. Em todas as grandes decisões da nossa vida somos fiéis sempre aos mesmos princípios: fazer o que achamos certo e seguir o coração. E o nosso coração bate muito mais forte ao ritmo das duas rodas. Chegara a hora de cruzar o oceano, uma viagem há muito idealizada, e há muito sonhada, tornou-se realidade quase que de um dia para o outro. Um jeito da vida nos dizer que seguir o nosso coração, e ser fiéis às nossas convicções, nos trará um dia coisas maravilhosas.
Agora, é hora de partilhar o roteiro da nossa viagem pelos USA. Com as divisões de etapas diárias, o mapa detalhado e tudo o que precisam saber para seguir os nossos passos. Este é o percurso de duas semanas de viagem pelos USA South West, nos meses de Outubro e Novembro. Viajar nesta estação pelas montanhas, traz a incerteza do clima e a magia das cores de Outono. Nunca esquecer: “Difficult roads often lead to beautiful destinations.”- Zig Ziglar.


O nosso roteiro, reflecte as alterações que tivemos de fazer no decorrer da viagem como consequência do clima na montanha, mas não deixou por isso de ser a viagem fabulosa e onde visitámos todos os lugares inicialmente pensados. Para seguir para um roteiro equivalente de forma flexível, mesmo numa viagem com os dias limitados, é importante que se conheça previamente a geografia e mapa da região. A partir daí, opções não faltarão para milhares de quilómetros de curvas felizes e rectas surpreendentes.
Ideia geral do roteiro de viagem pelos USA
Com os principais pontos de interesse gravados sobre o mapa (mapa partilhado no final do artigo) a ideia geral do roteiro de viagem pelos USA South West ficou clara: desenhámos um oito cheio de curvas!
Uma rota circular com início e final no estado da Califórnia, na grande cidade de São Francisco, e uma mota da agência de alugueres EAGLERIDER. Lake Tahoe é o primeiro destino antes de entrar nas estradas do coração da Sierra Nevada. Se num primeiro olhar o Yosemite National Park rouba as atenções por ser um dos mais famosos do mundo, um olhar mais atento sobre o mapa leva-nos a identificar várias estradas de alta montanha que se revelam promissoras. Relembramos assim que, por muito que conhecer os famosos locais de cada região seja importante, é igualmente importante deles fugir. Explorando os lugares mais remotos e as estradas de montanha menos divulgadas.
Da Sierra Nevada ao Death Valley National Park entramos no estado do Nevada com destino a Las Vegas, a Sin City e o ponto central do nosso oito sobre o mapa. A partir de lá, espreitamos uns quilómetros de Route 66. Cujo percurso integral nunca foi o objectivo da nossa viagem. Por sua vez, a caminho do Grand Canyon, é possível enquadrar no percurso e conhecer uma das mais conhecidas rotas numa viagem pelos USA.



Os Mighty 5
Seguimos pelo estado do Arizona para o mágico Monument Valley onde é obrigatório ver pelo menos um pôr-do-sol. Entramos na sequência de parques nacionais majestosos do Utah: Canyonlands, Arches, Bryce Canyon, Zion e Capitol Reef, os Mighty 5.
Regressamos ao Nevada e a Las Vegas para tomar rumo a sul e ao Mojave Desert para conhecer o Joshua Tree National Park. Los Angeles torna-se num rápido, e incontornável, ponto de paragem a caminho da rota costeira Pacific Highway. E, se nos primeiros dias não conseguimos explorar o Yosemite e Sequoia e Kings Canyon Nationals Parks, ficou bem a jeito de por lá fechar a nossa rota. Este é o nosso roteiro de viagem pelos USA, com cerca de 7000 km para 15 dias de viagem.




Roteiro de 2 semanas de viagem pelos USA, em duas rodas
Dia 1 – São Francisco – Lathrop
Viagem de avião Lisboa – São Francisco
O coração já não batia tão acelerado na véspera de uma grande viagem há muito tempo. Sair da nossa zona de conforto traz estes efeitos secundários que acrescentam emoção à nossa vida, nos fazem sentir vivos e enriquecem a cada passo. Há algo mais entusiasmante do que isso? Estava na hora de ir para o aeroporto apanhar um avião para São Francisco, na Califórnia. O nosso ponto de partida para uma viagem pelos USA.
Entrámos no avião com os fatos da mota vestidos, os capacetes na mão com umas sandes de pão caseiro dentro, e os sacos amarelos da Touratech no ombro. Aquele aparato de quem, além de levar o farnel, não quis viajar com bagagem de porão e entrou no avião a destoar dos normais passageiros. ”Elahhhh, parece que isso vai ser uma viagem daquelas!” Ouvimos algures na cabine. Era um simpático assistente de bordo, motociclista e que reconheceu de imediato que a indumentária, e bagagem, associadas ao destino do voo adivinhavam uma aventura épica!
Durante as 13h que se seguiram muito pouco há a contar. Apenas que, entre os muitos filmes que assistimos, não sentimos necessidade de tirar os fatos da mota para um voo de longo curso. Pelo contrário! O ar condicionado do avião parecia determinado em oferecer-nos uma experiência de crioterapia prolongada e, para isso, não há melhor do que o fato da mota vestido. Também levei as minhas toalhitas desinfectantes para limpar o espaço, pois claro. Sonasol não me pareceu prático.
Recolha da mota em São Francisco e saída da cidade
Chegámos a São Francisco e, o atraso provocado pela espera para passar as formalidades da U. S. Customs and Border Protection, quase que nos fazia falhar o horário para chegar à EAGLERIDER.
A EAGLERIDER é a maior empresa americana de aluguer de motas e tours, tem agências espalhadas por todas as grandes cidades do país. Nós escolhemos São Francisco para levantar a nossa nova companheira de duas rodas das próximas semanas: Harley Davidson Electra Glyde. Se estás na América, sê americano. E não há nada mais americano do que uma Harley Davidson! Os olhos do João brilhavam de entusiamo. Há tanto tempo que falava que queria percorrer os USA de Harley Davidson que ainda mal estava a acreditar que acabara de se tornar possível.
Na verdade, aquele final de tarde com a luz de Outono a iluminar a cidade São Francisco, e suas famosas colinas, ainda mal parecia realidade. Estávamos ambos ainda em fase de fascínio e felicidade, algo incrédulos que estávamos por fim com as duas rodas nos USA. Atravessávamos a Golden Gate na hora de um mágico pôr-do-sol. Em tanta euforia e com tanto a absorver que até nos esquecemos de tirar a máquina fotográfica da bagagem. Desculpem se não eternizámos esse momento para vos mostrar.

Saímos da cidade de São Francisco assim que possível
Depois de levantar da mota às 17h, o Quilómetro Infinito converteu-se de imediato em Milha Infinita e o dia ainda nos reservava 200 quilómetros a percorrer até ao hotel. O nosso objectivo era sair da grande cidade de São Francisco e rumar aos lugares mais remotos. Sabem que fugimos de grandes cidades.
Tivemos uma introdução à condução de uma nova mota, num novo ambiente urbano, repleto de nova informação a absorver, regras de trânsito e sinalética distintas, onde tudo nos parece à escala gigante. Também por entre condutores de carros que por lá são normais mas por cá parecem camiões. Onde os camiões parecem comboios e os comboios parecem muitos comboios juntos. Só porque não me estou a lembrar de um objecto muito muito grande para comparar! Duas horas depois estacionávamos a Harley Davidson no hotel, pouco passava das 20h. Será que vamos dormir de tanto entusiasmo?
Porquê não pernoitámos em São Francisco nesta viagem pelos USA?
Nesta nossa viagem pelos USA o objectivo principal vai de encontro ao nosso gosto pessoal: explorar a natureza e as estradas que atravessam as montanhas. Viajar de mota pelas cidades é algo que evitamos e, também por isso, não ficámos em São Francisco para explorar a cidade. Mas existem outros motivos: a segurança e os elevados preços das estadias. Os problemas com o consumo de drogas e todo o seu submundo associado são crescentes no centro da cidade de São Francisco e, foram também um motivo para não pernoitar na cidade da Golden Gate e Alcatraz.
🏠Alojamento em Lathrop
- Fairfield by Marriott Inn & Suites Stockton Lathrop
- Hampton Inn & Suites Lathrop
- Holiday Inn Express Lathrop – South Stockton, an IHG Hotel
Dia 2 – Lathrop – Lake Tahoe
Já disse que estamos noutro fuso horário? Na Califórnia são 8 horas a menos do que em Portugal, e os sonos andam um bocado trocados. Ou será a excitação de um novo destino por desbravar que nos fez acordar de madrugada? Frescos como uma alface da nossa horta?
Abrimos a janela do quarto do hotel e, no horizonte, as cores do crepúsculo pintam os céus. São 6 horas da manhã. Os tons amarelados lutam com o azul e anunciam que será um dia soalheiro pelas estradas da Califórnia. Espreitamos a Harley Davidson no parque de estacionamento do Fairfield Inn Stockton Lathrop. Parece que ela teve uma noite tranquila. Just in case, ficou com o cadeado de disco que a EAGLERIDER fornece com todas as motas que disponibiliza.
Pouco passava das 7 horas da manhã e estávamos em pulgas para a ir para a estrada. Apesar do sol radioso, estão 10 graus fora do nosso fato e as camadas térmicas que levámos na bagagem aquecem-nos agora o corpo. Já o coração, esse está quente e feliz. Os olhos brilham de emoção. Confesso que as lágrimas escorreram-me pela face dentro do capacete.
Olhamos em volta para uma estrada gigante à beira do parque do hotel. Parece que é a Interstate 5, as super gigantes auto estradas americanas onde faremos apenas umas curtas milhas. Temos um objectivo muito bem definido: perseguir as montanhas deste país o máximo que conseguirmos e, a Sierra Nevada é o expoente máximo da Califórnia.

Planeamento?
Patrícia como foi esse planeamento? Perguntam vocês. Amigos! Esta viagem pelos USA está há tantos anos sonhada, que todos os livros, revistas e mapas estão cravados na minha memória com alinhamento Norte- Sul e Este-Oeste em precisão. De dia para dia só tenho de construir a rota unindo o máximo número de pontos possível, e o João trata de a colocar no nosso Garmin Zumo XT2. Porque claro! Claro que trouxemos o nosso GPS, e o João instalou-o na Harley Davidson com as suas técnicas de MacGyver. Prometo que vou partilhar o filme que fiz com a explicação da sua abordagem eléctrica, que ele diz ser simples, mas a pessoa fica ali de olhos arregalados a pensar: WTF?!
Se há coisa que a vida em viagem nos ensinou é que em equipa que ganha não se mexe, e a liberdade é maior longe da dependência do nosso smartphone, e da sua necessidade de rede móvel. Somos tão apologistas da liberdade, que continuamos a tirar o melhor partido do que a tecnologia de um GPS nos dá, sem nunca esquecer o mapa papel nas bagagens: USA West by Marco Polo.
Dicas práticas neste artigo:Viagem de mota pelos USA – Custos, documentos e informações práticas

Entrada na Sierra Nevada
Será que estamos no Alentejo? As planícies imensas revestidas pelos dourados da vegetação rasteira levam-nos a crer que sim. Atravessamos milhas e milhas de vinhedos, árvores de fruto e imensos campos onde as vacas americanas pastam pacificamente. Não fossem os camiões de proporções gigantes estilo Mad Max que passam por nós ocasionalmente, facilmente nos esqueceríamos que estamos na América.
Ora esqueçam tudo. Entramos de repente na Sierra Nevada e parece que fomos tele transportados para outra realidade. Num ápice estamos a ganhar altitude e, quase sem perceber, acima dos 2000 metros. As estradas são agora contornadas por imensas florestas de pinheiros altos e esguios, de olho em penhascos abruptos e montanhas esbranquiçadas, interrompidas pelo brilho luminoso das árvores nas cores de Outono. Sabem que é das nossas estações preferidas para viajar? Os tons de amarelo, laranja e vermelho invadem-nos a alma. Há lá estação mais mágica para viajar de mota! O que é a necessidade de ceroulas dentro fato perante a oportunidade de testemunhar tamanho espectáculo da natureza? Venha o frio e venha o espectáculo natural que traz com ele.

Carson Pass
O João está em silêncio há um tempo. Mas como geralmente ele levanta-se mas só realmente acorda muitas horas depois, não foi algo que estranhasse de imediato. Afinal ainda não são 9 da manhã. Depois vi uma luz amarela na Harley Davidson e fiquei com suores frios. Juro que tentei perguntar delicadamente qual a autonomia da mota, constatando imediatamente que estávamos a subir o Carson Pass, que tem uns 100 km de paisagens remotas entre as povoações que o unem. A autonomia diz que ainda dá para 40 milhas! Diz o João, pouco convencido.
Como assim? A pessoa está em stress e ainda têm que fazer contas mentais entre o que são exactamente 40 milhas em quilómetros? Ainda mal tinha acabado de fazer a conversão e as 40 milhas passaram para 20… Não encontramos vivalma, não temos rede no telemóvel e continuamos a subir a montanha. Agora, a passo de caracol para poupar gasolina. Assim também há mais tempo para as paisagens maravilhosas, se ficarmos a pé, ficamos em estilo.
Entrei em modo silêncio também. E o João sabe que quando a pendura entra em modo silêncio é um problema. Eu sou sempre apologista de abastecer com boas margens de autonomia em todo o lado, ele gosta de testar os limites do depósito das viaturas e só pensa em abastecer quando vê a luz da reserva.

Numa viagem pelos USA se vais para o deserto ou montanha, leva o depósito cheio
Mais de uma hora se passou! Foi necessário pedir ajuda ao Garmin Zumo XT2 para nos levar à bomba de gasolina mais próxima e sair da rota. Quando chegámos a Markleeville, uma pitoresca aldeia no Ebbets Pass, respirámos de alívio. Havia agora outro desafio: a bomba de gasolina é de pagamento automático.
Tentámos pagar com o Moey e não conseguimos. Tentámos com o Revolut e não conseguimos. Tentámos com o cartão de crédito tradicional e não conseguimos. Ainda não tínhamos levantado dólares e nem uns trocos tínhamos para pedir ajuda a algum local. Markleeville, com os pequenos edifícios a lembrar o faroeste, parecia-nos ainda assim um belo lugar para pernoitar. Só que ainda eram dez horas da manhã… Tentei novamente com o Revolut mas, em vez de selecionar a opção pagamento a débito escolhi a de pagamento a crédito. Ouvi a bomba de gasolina a reagir: pagamento aceite! Ufa.


Seguimos para a nossa rota em redor do gigante lago de água doce que separa a fronteira entre os estados da Califórnia e o Nevada: Lake Tahoe. Mal o avistamos do topo da montanha, regressa o sentimento mágico de nunca ter presenciado tamanha grandiosidade num local só. Está um frio árctico e South Tahoe City é o local eleito para pernoitar. Lembra-nos as cidades da Escandinávia e, se víssemos o Pai Natal íamos jurar estar na Finlândia. Vamos procurar um restaurante italiano para tirar a barriga de misérias porque o almoço foi um piquenique algures na montanha.

🏠Alojamento em Lake Tahoe
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Dia 3 – Lake Tahoe – Mammoth Lakes
Pouco passam das 5 da manhã quando tento procurar o João na cama do The Elet Hotel, em South Lake Tahoe City. Estiquei o braço e não o encontrei. Estas camas americanas tem uma dimensão tão gigante que parece que estamos a dormir sozinhos. Tive de me levantar de susto! Não por receio do João ter fugido, mas porque na rua parece que passou o Dominic Toretto, em plena Velocidade Furiosa. E eu que pensava que ele tinha ficado retido na barragem em Lamego.
Na pacata avenida do hotel, algures na madrugada, existe um americano acordadíssimo, que tratou de acordar toda a demais população na vizinhança, enquanto fazia manobras fervorosamente barulhentas ao volante de um Mustang preto, de motor ruidoso. Acho eu que era preto, afinal ainda era de noite quando o espreitei pela cortina.
Pareceu-me ter sido um óptimo despertador! Como é que se consegue voltar a dormir quando se sabe que está a América por explorar e o dia está quase a nascer? Saímos novamente iluminados pela luz do crepúsculo, para ter agora oportunidade de ver algo que raramente vimos: o nascer do sol na estrada.
As estradas da Sierra Nevada numa viagem pelos USA
Seguimos para sul, rumo ao Yosemite, mas antes de entrar num dos parques naturais mais famosos do mundo, queremos explorar as pequenas estradas mais remotas dos seus arredores. Sim! Porque quando olho para o mapa de um destino, mais do que as rotas panorâmicas em destaque a verde, mais do que os pontos turísticos altamente divulgados, procuro as pequenas estradas que mal se notam no mapa. Se estiverem associadas a um desnível considerável, tenho a certeza de que encontrei a receita para uma rota de mota com grande potencial. Nesta viagem pelos USA não foi diferente.

O nascer do sol no Carson Valley
Saímos de South Lake Tahoe rumo à montanha pela Kinsgsbury Road, que nos leva a ver o nascer do sol com vista para o Carson Valley. Deixei a máquina fotográfica no top case, e já estou há uns quilómetros em pulgas a ver cenários tão maravilhosos sem a ter para fotografar. Passo tantas horas com ela ao pescoço que quando decido que a deixo na bagagem fico logo a sentir-me incompleta. Mas como não sei se o João já acordou não quis pedir-lhe para parar logo.
Afinal ele estava acordadíssimo às 7 da manhã. Como não estar assim que se põem os olhos no nascer do sol naquele idílico vale que se agiganta perante os nossos olhos? Revestido de árvores naquele espectáculo de cores entre o vermelho, laranja e amarelo?! Se há uns anos sonhávamos com esta viagem pelos USA, parte desse sonho era que essa viagem pudesse ser por entre as cores de Outono. Mágicas.



Ebbets Pass
Mal passámos pelo Topaz Lake voltamos a sair do vale a mergulhar no coração das montanhas, o nosso habitat natural. A percorrer um gigante desfiladeiro escavado pelo rio, entre sinuosos traçados que nas américas também existem, encontramos uma sequência de estradas de alta montanha que nos fazem gritar dentro do capacete! Uau! Uau!
A paisagem muda constantemente, mesmo em altitude, entre o estilo desértico e o alpino densamente florestado. Numa dança por entre a natureza onde só ouvimos o ecoar da Harley Davidson. Tememos que acorde os muitos veados que por ali habitam. Chegamos aos mais de 2600 metros no topo do Ebbetts Pass, e é a hora de vestir outra camada. Sabem que, apesar do sol radioso, está aquele vento frio que nos faz chorar os olhos? Não basta já chorarem de alegria, estão a chorar de frio também! É muita choradeira junta.
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São 11 da manhã quando passamos na histórica cidade de Murphys. O pequeno almoço já foi há umas quantas horas, e a nossa barriga diz agora que são horas de almoçar. Se há coisa que gosto nesta terra, é que o pessoal aqui come quando tem fome! Não há cá horas de almoço específicas. Posso muito bem pedir um hambúrguer às 6 da manhã! O Murphys Diner é aquele tradicional restaurante americano onde entramos e nos cheira, de facto, a comida. Sem expectativas na gastronomia americana, não estávamos a contar meter o dente num suculento e saboroso hambúrguer, servido com alface e tomate muito frescos e acompanhado de batatas fritas verdadeiras.
Voltámos à montanha com nova energia. A nossa vida neste dia tem ainda muitas curvas por fazer! Uns 500 quilómetros delas diz o nosso Garmin Zumo XT2. Sim, ele fala para nós em quilómetros numa terra de milhas, e não quisemos mudar essa definição.


Sonora Pass
As montanhas nesta região estão desertas. Passamos muitas horas sem rede móvel, onde não nos cruzamos com um único carro. Onde não vimos uma única pessoa. A nossa companhia são os esquilos suicidas que apanham banhos de sol nas bermas da estrada e os veados que nos lembram constantemente que andar devagar é recomendável.
Quando chegamos ao topo do Sonora Pass, avistamos ao longe um rapaz de bicicleta junto à placa que identifica a passagem. É um indiano de boa perna que pedalou num desnível brutal até aos 2800 metros de altitude, e tenta agora registar esse momento numa fotografia. Aproximo-me e cumprimento, oferecendo-me logo para o fazer. Aquele rapaz merece uma bela foto para registar para sempre a sua conquista. E porque gentileza gera gentileza, após uns minutos de conversa também ele nos tira uma bela fotografia.
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Mammoth Lakes
Quem olha para o mapa da Sierra Nevada, consegue concluir que entre o Yosemite e o Sequóia National Park existem centenas de quilómetros de uma montanha sem grandes oportunidades de a atravessar. Por sua vez, nesta face norte, encontramos pelo menos 4 rotas de alta montanha que nos garantem ser possível: passámos o dia numa dança de curvas entre o Carson Pass, Ebbets Pass, Sonora Pass e Lexington Pass e chegamos agora a Mammoth Lake. Com um frio que está cada vez mais frio, temos um novo problema…
A fazer o check in no Cinnamon Bear Inn, o simpático mexicano que nos recebeu faz-nos uma recomendação: retirar toda a comida da mota e batons. Como assim? Porque raio se lembrou ele de batons? Não é que há por aqui ursos e, durante a noite, além de virem procurar a comida nas viaturas, parece que também vêm as ursas que gostam de batons? Não sei se para comer, se para pintar os lábios, mas ocorreu-me que fosse mais uma preferência de ursas do que de ursos. Mas pode ser uma conclusão precipitada. Também nos disse, enquanto nos olhava como se fôssemos malucos, que vai nevar por ali de noite, e o Tioga Pass no Yosemite, acabou de fechar por segurança. Será que a Harley Davidson amanhã vai acordar vestida de branco?

🏠Alojamento em Mammoth Lakes
Dia 4 – Mammoth Lakes – Pahrump
Saltei para a janela assim que acordei. Para ver se a floresta de pinheiros que rodeia o Cinnamon Bear Inn está coberta de branco, já que a Harley esta noite não ficou debaixo do nosso olho.
Parece que o mexicano que nos disse que a partir das 3 horas manhã nevava muito, não percebe nada de neve. Até nos fez dormir em sobressalto a imaginar como sairíamos de Mammoth Lakes se as estradas estivessem com gelo. Com tanto carro com reboques atrelados, já nos estávamos a ver a pedir favores a um americano. Dada a simpatia do povo que por aqui encontramos, temos a certeza que não nos iriam deixar na mão.
Enquanto entrei na sala do pequeno almoço, com cheiro a café e panquecas, o João ficou a fazer o puzzle matinal a arrumar as bagagens na Harley, colocar a comida e os cobiçados batons novamente na mota. Passados uns minutos, ouço a velha porta de madeira a ranger, enquanto abria com mais afinco. Despacha-te, estão a cair coisas brancas do céu. Disse me em tom agitado.
Estavam -2 graus às 7 horas da manhã e, se do lado Este o céu estava azul e radioso, a Oeste a montanha estava agora coberta por uma capa de nuvens em vários tons de cinza. O plano do dia era entrar no Yosemite para explorar o parque natural. Como viajamos no Outono, e a possibilidade de muitas estradas estarem fechadas por causa do gelo é grande, saímos a cada dia sem saber onde terminaremos no dia seguinte. Claro que conhecer essa realidade nos fez definir vários planos e, hoje, seguimos para o plano F. De fuga. Se vai nevar na montanha, vamos para o sol do deserto.
Tempestade no Yosemite National Park
Deixámos Mammoth Lakes, e as montanhas, para trás pela Highway 203. À medida que nos afastávamos, víamos nos espelhos da Harley Davidson o céu cada vez mais cinzento a ficar para trás. Uma tempestade de neve ameaçava as montanhas da Sierra Nevada, e era a responsável por nos empurrar ao sabor de um vento gelado.
Chamámos-lhe o Tardo! A personagem do estilo Bicho Papão, daquelas coisas que as nossas mães nos diziam antigamente. Vem aí o Tardo João! Enrola o punho nessa mota e pisga-te, mas não passes dos 100km/h porque a Highway Patrol anda aí, e pode muito bem ser a personificação do Tardo. Numa viagem pelos USA é importante ter em consideração que os limites de velocidade são baixos e rigorosos!



Death Valley National Park
Rumámos a sul pela Highway 395 até às portas do Death Valley. E por aqueles mais de 200 quilómetros de distância, as montanhas da Sierra Nevada acompanham-nos à nossa direita para nos deslumbrar continuamente. No sopé daquelas imensas formações rochosas, de cores e formatos peculiares, admiramos a montanha, que esta noite se fechou para nós, de uma outra perspectiva. A temperatura começa a subir e, se pela manhã saímos sob ameaça de neve, estamos agora a despir camadas numa das bermas da Highway 395. As longas distâncias de paisagens remotas são interrompidas por pequenos vilarejos cheios de vida e com decorações de Halloween. Os camiões gigantes de cores e formatos fascinantes continuam a passar por nós.
Estamos no deserto e a temperatura é agora a do deserto. Chegou a hora de ficar em t-shirt e abrir todas as ventilações do Klim Artemis. As estradas perdem-se de vista no horizonte, e ondulam perante os nossos olhos de forma infinita. É o Death Valley National Park, um dos lugares mais marcantes do planeta Terra e imperdível num roteiro de viagem pelos USA.


Do frio ao calor em poucos quilómetros
Parámos para despir camadas, hidratar e comer um pêssego. Deixei o caroço enterrado na areia do deserto, na sombrinha de um calhau gigante, e ainda reguei com um bocadinho da minha água. O João estava a rir de mim. Mas será que vai nascer ali um pessegueiro? Se um dia passarem na placa que anuncia Death Valley National Park, The Homeland of Timbisha Shoshone, e virem um pessegueiro, continuem o meu trabalho: reguem-no se faz favor!
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Do alto do Father Crowley Vista Point, tivemos pela primeira vez a experiência do que é ver uma miragem no deserto. A imensidão daquelas paisagens cheias de luz, entre altas temperaturas e desprovidas de vida, revelam o fenómeno físico que nos cria a ilusão de ver uma larga superfície molhada. Quanto mais nos aproximamos, mais ela se afasta. E, na realidade, nunca lá esteve. Observamos o serpentear da estrada no vale a nossos pés e a gratidão por ali estar invade-nos a alma. Que coisa mais linda!

A imensidão do Death Valley
Se sobre o mapa, a estrada 190 nos parece apenas uma pequena travessia do deserto, na realidade representa mais de 150km de vazio, e quase duas horas de travessia. Sem serviços, sem pessoas, sem nada. Apenas a beleza natural de terra tão inóspita. Com o peso do sentimento de quem está a ver porque chamaram Death Valley àquelas terras.
As placas amarelas DIP multiplicam-se pela estrada. Intrigamo-nos continuamente sobre o seu significado já que é a primeira vez que as encontramos: ”Die In Piece” é a minha interpretação. Enquanto vejo novamente a autonomia da Harley a descer, e estou sem rede móvel para descobrir a que distância será a próxima bomba. Não quero pedir ao João para ver no Garmin … não vale a pena deixar mais uma pessoa com essa preocupação. O Furnace Creek Visitor Center surge horas depois no horizonte, com a sinalética de bomba de gasolina. Vem aquele grito silencioso de alívio.
Nas temperaturas elevadas do Death Valley National Park
Estamos nesta viagem pelos USA em pleno mês de Novembro, e o termómetro do centro de visitantes diz que estão 34 graus. Enquanto oferece água gratuitamente a todos os que por ali passam, reforçando a importância de se manter hidratado. Imagino quem visita estas terras no Verão que temperaturas por ali deve encontrar. De mota será a oportunidade de cozinhar lentamente dentro do fato, e as placas tornar-se-ão em DIH: Die In Hotness.
No alto do Zabriskie Point, paramos a admirar árida paisagem criada pela erosão naquele terreno a que chamam Badlands. O vento é o principal agente modelador por um motivo e, quem olha para o horizonte, consegue concluir porquê. Uma nuvem gigante de pó aproxima-se a grande velocidade da nossa localização, e anuncia que as próximas horas a sair do Death Valley, pelo Jubilee Pass, serão de emoções, e ventos fortes. Fecha o capacete! Diz o João.


Os ventos fortes do deserto
Viajar de mota sob uma tempestade de areia, com ventos fortes, requer um trabalho de equipa sincronizado. Aquele conjunto de três: mota, condutor e pendura têm, agora mais do que nunca, de ser apenas um só. O João tenta adivinhar qual a direcção das rajadas mais fortes consoante a posição na estrada, e conduz a Harley numa zona da via que seja o mais seguro possível quando é empurrada de repente pelo vento. Eu, enrolo-me a ele lá atrás, e tento que a distância entre nós não crie nenhuma zona extra para passagem de vento para destabilizar o conjunto.
Nas curvas, sinto a mota demasiado inclinada para o normal, sentido a grande acção do vento, e dou por mim a inclinar-me na direcção oposta instintivamente. Imagino de imediato qual será a mínima superfície do pneu em contacto com o solo naquele momento… e volto a sentir a Harley a corrigir a posição. Não me perguntem receitas, apenas sinto que o João precisa da minha intervenção.
É o Tardo! Veio atrás de nós!! Digo eu enquanto estou a rir freneticamente. E tu ainda te ris! Diz o João. E vale lá a pena chorar? Se esta Harley for empurrada da estrada, e nós não a conseguirmos controlar juntos, pelo menos vamos despistar-nos na bacia de sal de Badwater. Aquela que no meio da ventania não tive oportunidade de registar, mas que me pareceu fofinha.
Os mais de 100 km que se seguiram foram, literalmente, ao sabor do vento, enquanto o Garmin Zumo XT2 nos dizia que estávamos a caminho do centro da Terra a chegar aos – 85 metros de altitude. Quase 3 horas horas de viagem depois podemos, por fim, estacionar a Harley Davidson no parque do Holiday Inn Express & Suites, em Pahrump.
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João achas que ela está segura aqui estacionada com tanto vento? Pergunto. Se o vento tombar a Electra Glyde, aquelas Tenerés 700 que ali estão ao lado amanhã estão em Portugal! Diz ele. Dou por mim mais tranquila. Ao nosso lado estava uma dezena de Tenerés revestidas com o pó que confirma que andaram pelos maus caminhos do Death Valley, e viveram. Se o vento tombar os 400 kg da Harley, as Tenerés e os seus menos de 200kg, vão de facto, ter convosco a Portugal. Just in case, esta noite, durmam de capacete e abram as portas da garagem.
🏠Alojamento em Pahrump
Dia 5 – Pahrump – Las Vegas
Não é que ontem não tivéssemos aguentado mais umas horas de vento forte, mas parámos em Pahrump apenas para não ficar duas noites numa grande cidade. Sabem que fugimos delas em viagens de mota. Mas se passas perto de Las Vegas, uma das mais famosas cidades do mundo, tens de parar por lá para a conhecer! E ir a um casino.
Usamos sempre a mesma técnica em cidades. Dormimos a uma distância menor de Las Vegas, chegamos à cidade por volta da hora do almoço, fazemos check in no hotel, despimos a roupa de motociclistas e seguimos como pessoas normais para conhecer a Sin City. E como por aí alguém já me disse: Patrícia! Mas nós somos pessoais normais! Somos nada! Motociclistas são pessoas excepcionais ok?
Querem conhecer a história do dia que vai levar o João a rir de mim pela vida toda? A pessoa está a escolher um hotel em Las Vegas que seja perto do centro, tenha garagem e que, aparentemente, não precise de limpeza extra com o Sonasol que não trouxe. Repara que Las Vegas tem um hábito estranho na hotelaria: vende os quartos a um preço relativamente barato, mas nas letras miudinhas adiciona taxas de resort ao preço de vinte quartos. João já viste isto? Vi aqui um hotel a 50 dólares por noite, mas depois adiciona aqui uma taxa de resort de 280 dólares e diz que tem vista strip. Mas quem é que vai pagar isto para estar toda a noite a ver uma menina a dançar da janela do quarto?
Strip é a avenida principal de Las Vegas ok?
No meu imaginário, tendo em conta a loucura pela qual Las Vegas é conhecida, aquele hotel devia ter um serviço de entretenimento do género Strip. Na minha mente, a única explicação pela qual poderia cobrar a exorbitante taxa de 280 dólares. O João riu desalmadamente. Tu não vês que Strip é a avenida principal de Las Vegas? Diz ele. E eu sabia lá que a Strip é o nome famoso da Las Vegas Boulevard, a avenida mais louca da América? Ainda assim, os 280 dólares continuam a não fazer sentido.
O estado do Nevada é também conhecido pelas suas infinitas áreas no deserto. E a hora de viagem que separa Pahrump de Las Vegas é mesmo uma travessia no deserto. A entrada na Sin City é feita por uma estrada sem nada em redor, que entra de repente nos semáforos de uma grande cidade, de forma abrupta e surreal. Do nada vês Porsche’s, Lamborghini’s, Mustang’s e Ferrari’s ao teu lado. Estamos em Las Vegas! E eu já vi placas para a Strip! Mas sabem o que vamos fazer primeiro? Vamos ao Walmart. Uma grande cadeia retalhista nos USA conhecida pela colecção exclusiva de Hot Wheeeeelssss.
Entramos os dois entusiasmados numa superfície comercial do tamanho de Portugal. Avançando pelos corredores de um hipermercado com ruas que parecem uma cidade, em busca da estante azul dos carrinhos. Mas tanta excitação para quê? Realmente haviam muitos, mas já os tínhamos visto todos em Portugal! Que desilusão. Afinal, nesta viagem pelos USA encontrar os especiais desta colecção não é tão simples quanto parece.
Os restaurantes italianos nos USA que salvam portugueses
A cerca de 15km do centro de Las Vegas (o local que abrange toda a extensão na Strip Avenue), pensamos estar no melhor lugar para procurar um restaurante para almoçar longe das tourist traps. Grimaldi’s Pizzeria! E pelas fotos é mesmo um lugar onde fazem pizzas italianas! Não americanas! Uma pizza gigante, uma salada mediterrânica de ingredientes super frescos e uma San Pellegrino para dois portugueses famintos.
As ruas de Las Vegas são gigantes. Os dois sentidos de trânsito contam com pelo menos 4 faixas para cada lado. Parecem ter sido desenhadas a regra e esquadro e, o trânsito é surpreendentemente ordenado para uma grande cidade. A Harley é admirada a cada semáforo vermelho, e recebemos sorrisos e cumprimentos de vários estranhos. Retribuímos concluíndo, que por aqui, as pessoas são simpáticas e alegres. A Harley Davidson é mesmo um grande símbolo da América e, mal entramos no centro de Las Vegas, é o gigante concessionário Harley que visitamos. Localizado mesmo ao lado da placa Welcome to Las Vegas, onde as filas para tirar fotografias anunciam pelo menos uma hora de espera.
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Andamos de BMW, mas gostamos de motas e não só de marcas. Entrar num concessionário enorme, e ver tanta mota junta dá aquelas borboletas na barriga de emoção, até para mim! O João sempre foi um grande fã de Harley Davidson e, por ele, tinha também uma na garagem. Mas não venham já com essas ideias de trocar a RT. Aviso-vos já que a RT é a mota da nossa vida e não é para trocar. Não me enervem!
A loja EAGLERIDER Las Vegas
A paragem seguinte é a loja da EAGLERIDER, em Las Vegas. O maior serviço de aluguer de motos pelos Estados Unidos tem também uma loja em Las Vegas que é, por si só, um ponto de interesse para um motociclista na cidade. Mal entramos naquele imenso edifício de fachadas brancas e elegantes, somos recebidos por um mapa dos USA, em escala igualmente gigante, a revestir uma parede. Ali conseguimos ver de imediato as representações da EAGLERIDER no país. São tantassss! Qualquer que seja o destino para uma viagem pelos USA para onde queiram voar, acreditem: a EAGLERIDER tem lá uma loja com motas para alugar à vossa espera.
Encontramos motas de todos os estilos e marcas. Se nas américas são as Harley´s que dominam o mercado, quem quiser alugar uma Ducati, uma BMW, uma Yamaha também pode! Sejam elas motas de touring, maxi trail ou trail. Escolham e divirtam-se na que vos mais encantar. Na América quisemos ser americanos, e escolhemos a Harley Davidson para esta grande aventura. Mas admiramos com saudades uma R1250RT belaaaa lá perdida numa imensa frota. Iria jurar que a ouvi gritar-me ”não me deixes aqui” quando fomos embora.
Por fim na Strip Avenue numa viagem pelos USA
Por fim na Strip Avenue. E o João continua a rir de mim! Por mais que já a tenhamos visto centenas de vezes em filmes no cinema, o tamanho do ecrã, por maior que seja, jamais conseguirá representar a escala real daquela loucura. Hotéis de altura que tocam os céus sucedem-se à medida que avançamos, cada um a encarnar um monumento famoso de um país distante: Esfinge do Egipto, a ponte de Rialto em Veneza, a Torre Eifel em Paris, o Bellagiooo! O Caesars Palace! A Trump Tower. Salpicados por casinos e casinos, lojas de luxo, muitas fontes e lagos, muitas luzes que de noite darão nova vida à cidade. O trânsito acentua-se com a proximidade ao centro e é, também a oportunidade de percorrer de mota mais devagar aquela que parece a Disneylândia para adultos.
Passámos a tarde, e uma parte da noite, a caminhar uns quilómetros por toda aquela loucura. E decidimos também nós cometer uma loucura: apostámos 3 dólares no Casino do Caesars Palace!


🏠Alojamento em Las Vegas
- Hampton Inn & Suites Las Vegas Convention Center
- Holiday Inn Express & Suites – Las Vegas – E Tropicana
Dia 6 – Las Vegas – Grand Canyon
Boa sorte a andar de mota com o frio que está lá fora! Dizia-nos uma americana ao cruzar-se connosco no pequeno almoço do Hampton Inn & Suites Las Vegas. Somos sempre denunciados pelo barulho do nosso fato a caminhar em todo o lado. Mal ela sabia que quem precisava de sorte era ela, por não entender a felicidade que estávamos a sentir, por voltar mais um dia à estrada nesta viagem pelos USA. Andar de mota é uma paixão e poucos a compreendem.
O estado do Nevada acordou soalheiro. Mas mal saímos as portas do hotel sentimos o ar frio no rosto que confirmou de imediato os 3 graus de previsão que tínhamos visto no quarto antes de equipar. As temperaturas no deserto conseguem ser duras pelos extremos que representam. Estamos no extremo frio, e as malas estão agora mais vazias porque trazemos vestidas todas as camadas térmicas.
Garantir autonomia antes de sair da cidade
As nossas saídas pela manhã têm agora uma nova rotina. Não importa qual a autonomia da Harley Davidson, garantimos que ela sai com o depósito devidamente cheio. Por dois motivos: porque o João é um homem novo nos USA, e agora abastece muito antes de ver a luz da reserva, e porque já reparámos que quando saímos dos meios com muita oferta de combustível, o preço varia bruscamente. Se nos locais com muitas bombas em redor os preços rondam os 3,80 dólares/gallon, nos locais mais remotos, onde pessoas como o antigo João chegam a vapores, sujeitam-se a pagar mais de 7 dólares por uns quilómetros de autonomia.
Garantir o nosso farnel também é fundamental. Água e comida na mota sempre, pois nunca sabemos onde estaremos nas horas em que nos dá a fome. Provavelmente no meio do deserto. E reparem que não digo horas de almoço, pois sou sempre mais adepta da liberdade de comer quando tenho fome, não porque alguém disse que são horas de almoço.
Entro no Walmart enquanto o João fica no parque de estacionamento. Já deu para reparar que a ida ao mega supermercado lá do sítio já deixou de ser um ponto de interesse turístico. Enquanto tento entender quantos quilómetros tenho de andar até encontrar a estante da água simples, um simpático senhor, que me fez lembrar o Morgan Freeman, abordou-me com um sorriso. Viu-me de capacete na mão, com um fato de astronauta vestido e questionou: que mota é que a menina conduz? Eu respondi em brincadeira: Oh não! Nenhuma! Isto é uma fantasia de Halloween. Rimos os dois enquanto lhe explicava que era portuguesa, estava de Harley Davidson alugada com o meu marido, mas que em Portugal conduzia uma BMW rebaixada para micro pessoas. E, de repente, dei por mim orgulhosa: yeaahh também conduzo! Mostrei-lhe o Quilómetro Infinito e disse que era a ”proud mama”, enquanto me despedia.
Entrada na Route 66
Já não sei se é Highway 93, Interstate 93 ou U.S.93. Sei apenas que é uma auto estrada americana, de número 93, que em menos de 200 km entre Las Vegas nos coloca em Kingsman, num ponto de intersecção da histórica, e famosa, Route 66. É no parque do Arizona Route 66 Museum que paramos ao sol, para conhecer o espaço, e apreciar o novo aparato de informação que temos em redor.
São 11 horas da manhã e aquele fraco pequeno almoço de há 3 horas atrás já desapareceu. Enquanto estacionamos a Harley debaixo do pórtico turístico da Route 66 para uma foto em Kingsman, observo do outro lado da estrada um diner tipicamente americano. Em redor tem os carros antigos, pintados de cores pastel e de formatos peculiares. Aqueles que vimos apenas nos filmes e agora estão ali ao nosso lado. Entramos no restaurante decorado no chão com azulejos quadrados brancos e pretos, bancos altos de almofadas circulares azul turquesa junto ao balcão, entre um misto de cor de rosa dos restantes sofás da sala. Os empregados de mesa transportam comida a fumegar para as muitas mesas cheias de pessoas. Panquecas, hambúrgueres, ovos e bacon e tantas outras coisas em pratos com tanta comida que não conseguimos distinguir todos os ingredientes.
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Dois hambúrgueres clássicos, batatas fritas e um chá quente para aquecer a alma se faz favor. A senhora, de bloco de notas e caneta cor de rosa na mão, fica impressionada com a simplicidade do nosso rápido pedido. Não pedimos uma quantidade específica de molhos, um tamanho particular para a cebola, uma disposição de ingredientes numa ordem concreta ou qualquer outro pedido excessivamente pormenorizado, como os que ouvíamos nas mesas ao lado.

Uma das mais famosas estradas de uma viagem pelos USA
A Route 66 é uma das rotas mais famosas do mundo, e de uma viagem pelos USA. Ao longo de quase 4000 km, atravessa vários estados, e une a grande cidade de Chicago no nordeste dos Estados Unidos, a Santa Mónica LA, à beira do Pacífico. Com a modernização das estradas, a Route 66 ficou esquecida no tempo, e todo o comércio e cidades em redor passaram uma difícil fase. Mais tarde, ganhou nova vida através daqueles que a ela quiseram regressar, agora em modo passeio.
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A Route 66 numa viagem pelos USA
A sucessão de grandes rectas que desenha o traçado nesta região, é interrompida pela sucessão de povoados estilo Wild West com centenas de carros antigos, de muitas marcas e modelos, de muitas cores e formatos. Rodeados por sinais, placas de matrícula e todos os pequenos objectos que possam imaginar, dispostos por entre uma aparente confusão que nos encanta o olhar. Se habitualmente em torno das casas há jardins, por ali há carros antigos e todos os acessórios que possam imaginar, relacionados com o mundo automóvel e sua mecânica. Automóveis esses que, não sobreviveram outrora à viagem pela Route 66. Mas por lá ficaram eternizados guardando em si a história de todas as milhas que percorreram para ali terminar.
Se há uns anos numa primeira abordagem a uma sonhada viagem pelos USA era a Route 66 que nos surgia de imediato, mal nos debruçámos com outros olhos sobre o mapa dos USA, concluímos que, para nós, ela passava ao lado da maioria dos locais que queríamos muito conhecer: os parque naturais. Vamos dela sair rumo ao o Grand Canyon. Mas não quisemos sair do Arizona sem percorrer, nem que fosse por um dia, a mítica Route 66 e todo o encanto que oferece em torno da magia automóvel antiga.


Entrada no Grand Canyon National Park
Faltava menos de uma hora para o pôr do sol quando cruzámos a porta de entrada sul no Grand Ganyon, e é para um dos seus grandes miradouros que seguimos para as cores de final de dia. São muitas as emoções que desperta em nós. Já tínhamos visto inúmeras fotografias e filmagens, mas a dimensão do Grand Canyon consegue ser umas cem vezes superior ao que o nosso imaginário conseguiu imaginar.
Já viste aquele helicóptero? Aponta o João para o massivo desfiladeiro escavado pelo rio Colorado. Esforcei-me para ver o helicóptero mas o João teve de voltar a dar me indicações. Parecia uma formiga que mal se distinguia, por entre tamanho gigante cenário.
O Grand Canyon atinge quase 2km de profundidade, quase 30km de largura e 450km de extensão. Por milhões de anos o rio Colorado ali conquistou o seu curso, modelando um desfiladeiro surreal e tornando-o num cenário natural perfeito. Temos aos nossos pés o bilhete de identidade da Terra e a história geológica do planeta. É um lugar que obriga ao silêncio por minutos. Os olhos brilham com a emoção de quem está a testemunhar uma das maravilhas do mundo, e nada nos prepara para o tamanho da beleza que ali se presencia.
Aos mais de 2000 metros de altitude, e com o sol a ir embora, o vento frio às cinco da tarde lembra-nos que as temperaturas em Tusayan vão descer drasticamente. Será que vai nevar no Grand Canyon durante a noite?
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🏠Alojamento em Grand Canyon
Dia 7 – Grand Canyon – Monument Valley
Aos 2200 metros de altitude, e com temperaturas negativas, avançamos pelas estradas do Grand Canyon naquela manhã de frio árctico, mas paisagens arrebatadoras. O sol brilha com vigor e o céu azul não anuncia chuva para o dia. Ainda assim, estamos na montanha, com a sua característica humidade, e as condições fazem nos temer gelo na estrada. Especialmente nas zonas sombrias, já que à medida que avançamos espreitamos no horizonte os picos nevados em montanhas distantes e, por entre a floresta que atravessamos, algumas zonas com neve. A Harley pegou na segunda tentativa ainda não eram sete horas da manhã.
Será que é razoável continuar mais para norte? Pergunta o João, enquanto avalia se o brilho na estrada que se abre diante dos nossos olhos será gelo. No ecrã Garmin Zumo XT2 as definições estão sempre colocadas de forma a que a altitude seja um dos parâmetros de rota no visor. Espreito continuamente tentando entender se ainda estamos a subir ou, se em breve, vamos começar a descer.
Andámos pela Noruega num Verão esquisito, onde nevou praticamente durante todas as noites que por lá passámos. Não vai ser agora esta nevezinha que nos vai demover de continuar a visitar os parques naturais nesta viagem pelos USA. Este tempo outonal está altamente imprevisível, mas traz até nós todas as cores mágicas que nos têm deslumbrado desde que chegámos. Se um dia acordámos e a Electra Glyde estiver coberta de neve, só temos de continuar no mesmo sítio até que se torne seguro sair. (Estava eu a imaginar-me nos USA até ao próximo Verão) E, entretanto, o que não faltam por aqui são actividades fora dos fatos de motociclistas. Dizia eu ao João, enquanto sonhava com o mundo de rotas pedestres e passeios fora de estrada que se podem por ali fazer.


Grand Canyon National Park
Enquanto isso, constatamos que a estrada 64 contorna o Grand Canyon, e que a cada quilómetro é um local panorâmico de paragem. Passaram duas horas desde que saímos de Tusayan e ainda só fizemos 60 km dos quase 600 km que temos previstos para o dia. É impossível não querer parar a cada oportunidade que a montanha nos dá de contemplar, uma vez mais, o nobre trabalho do rio Colorado nestes milhões de anos da sua existência. Seria até rude para com ele não parar para admirar o seu esforço.
O João continua a alternar um ar preocupado, com um ar fascinado. Mas já sentiste a mota a escorregar? Pergunto eu. Não! Mas também não quero sentir. Se apanhamos gelo na estrada nunca mais controlo a Harley, e o mergulho no Canyon será uma certeza. Diz ele. Olhei para o desfiladeiro ao meu lado e fiquei mais tranquila. Para cair ao Canyon tínhamos de bater primeiro nos pequenos muros de pedra calcária que delimitam a estrada, dificilmente resultaria numa queda vertiginosa aos 2000 metros que nos separam das águas verde escuras do rio.
Gelo na estrada?
Vamos resolver este problema! Porque era de facto assustador ver a estrada no horizonte, por entre uma floresta de pinheiros estilo nórdico, com um brilho sinistro em muitas zonas. A Harley Davidson perdeu velocidade até parar ao ritmo mais suave e progressivo que o João conseguiu. Tirámos as luvas e metemos a mão na estrada em vários locais. Com o pé fizemos o teste de tracção sob o olhar intrigado dos demais visitantes que passavam nos seus carros aquecidos pelo ar condicionado. Alguns abrandaram para saber se estávamos bem.
Comecei a rir e ambos suspirámos de alívio. Não é que as temperaturas no Verão por ali devem ser tão extremas que, associadas ao número de carros e autocarros que por lá passam, a estrada derrete precisamente nas zonas coincidentes com as rodas? Aquele brilho é o alcatrão polido! Que requer também cuidado quando se viaja de mota, mas que está muito distante do perigo de gelo.
Horseshoe Bend
Horseshoe Bend é a próxima paragem, ainda dentro do Grand Canyon National Park, onde vamos ter umas milhas de caminhada dentro do fato da mota. Aqueles cerca de 2 km que distam do parque de estacionamento até ao miradouro são agora a oportunidade para aquecer dentro do fato. Por sua vez, já com muitas camadas despidas, chegámos ao vertiginoso ponto onde se admira o grande, e perfeito, meandro do rio Colorado que se assemelha a uma ferradura.

Eu tenho vertigens, e só de ver o João perto de precipício também tenho vertigens. É um lugar soberbo. Mas para o conseguir ver tive de ceder à insistência do João, e caminhar de gatas até ao ponto mais próximo que consegui. O coração está acelerado, entre o sentimento de fascínio e medo, as mãos transpiram e o sorriso é de nervosismo. Mas não quis dali sair sem apreciar aquele espectáculo e guardar numa imagem aquele momento.
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Já são quase 2 horas da tarde em Page, e as expectativas de refeições andam dentro dos domínios gastronómicos de influência mexicana. Toda esta região dos USA foi até à bem pouco tempo mexicana, e essas raízes culturais permanecem bem demarcadas nos hábitos locais. Decidimos voltar às nossas sandes improvisadas com queijo Philadelphia, e um presunto, que encontrámos no megamercado Walmart. O céu começa a anunciar as cores do final do dia em poucas horas e, do alto do Glen Canyon, concluímos que agora temos de enrolar o punho e acelerar o ritmo se queremos chegar a Monument Valley ao pôr-do-sol. 200km mais tarde.
Monument Valley
Agora só paro esta Harley no Forrest Gump view point! Se bem o disse melhor o fez. Aqueles 200km foram feitos em duas rectas com duas curvas praticamente! Com extensões a perderem-se de vista no horizonte plano, o Garmin Zumo XT2 anunciava que daqui a 100 km era para virar à esquerda, o que antevê logo a geometria daquela etapa do percurso.
Monument Valley é uma das imagens que correm o mundo quando uma viagem pelos USA se fala. Atravessar aquela estrada por entre a silhueta das formações de arenito naquele solo de cores avermelhadas, representa um novo momento de brilho no olhar. Naquelas cores de pôr-do-sol, ficamos encostados à Harley Davidson com todas as camadas térmicas vestidas. Com um sorriso embevecido no rosto à espera que o sol desapareça no horizonte, contemplando a pintura perfeita com que reveste os céus. E todos os dias escolhe uma distinta palete de cores.
São quase oito horas da noite quando estacionamos na Desert Rose Cabins, uns quilómetros adiante. O frio parece estar cada vez mais frio e as montanhas em nosso redor explicam porquê. Mesmo nas cores do crepúsculo, conseguimos distinguir nas paisagens, imponentes montanhas totalmente cobertas de neve. Isso explica a sensação térmica. Querem imaginar a nossa surpresa quando descobrimos que o único restaurante do sítio era uma esplanada? E querem adivinhar qual era o menú? Fomos jantar com os fatos da mota. Achámos indumentária adequada. Estamos agora no Utah.

🏠Alojamento em Monument Valley
Dia 8 – Monument Valley – Torrey
Frustrada com a água fria do chuveiro no quarto da Desert Rose Cabins, ainda estou a praguejar por ter pago um quarto a preço de ouro, e nem água quente se digna a ter, quando ouço o João chamar-me. A Harley está estacionada na frente do edifício de madeira de dois pisos, que acordou com os telhados revestidos de branco. Dás-me uma toalha para limpar o gelo do banco da mota? Pergunta o João lá fora.
Olho para as formações de arenito avermelhadas no horizonte iluminadas pelo sol vigoroso da manhã. Quem diria que ainda estão temperaturas negativas? Não vamos usar toalhas brancas no banco da mota!!! Disse eu. Continuava eu em modo rabugento, porque além do banho de água fria, relembrava agora aquela tendência masculina de utilizar o pano da loiça, e as toalhas brancas, para todas ocasiões também lá por casa. Os alojamentos pelas Américas devem sofrer desse mesmo problema por isso, já é muito comum em todos os quartos encontrar pequenas toalhas de cor castanha ou cinzenta que têm ”maquilhagem” nelas bordado. Parece encontrei o pano ideal para tirar a camada de gelo do banco da Harley Davidson.
Harley Davidson e capacidade de carga infinita
A capacidade de carga da Electra Glide é de facto excepcional, mas também é cada vez mais fácil nela carregar toda a bagagem à medida que vamos para norte. Temos todas as roupas vestidas! É só não abrir a viseira do capacete para não ter frio. Durante a noite também fica a servir de frigorífico. Quando estamos fora de território de ursos, nela deixamos toda a comida, e a única preocupação é que no dia seguinte o leite com chocolate acorde congelado.
Avançamos para a estrada mais felizes porque zonas sombrias são raras por estas estradas no Utah. Estamos em terras de índios! João… está tudo muito quieto e deserto. Achas que corremos risco de levar com uma flecha perdida? O estilo wild west invade-nos a imaginação, pois as paisagens por onde avançamos são aquelas que apenas tínhamos visto nos filmes de cowboys, índios e toda essa temática.

Newspaper Rock
Sabem que temos especial adoração por lugares de interesse arqueológico e histórico não é verdade? Não viríamos para o outro lado do mundo sem incluir na nossa rota visitas a alguns desses lugares. Newspaper Rock faz parte dos cenários da Indian Creek Scenic Byway nos limites do Canyonlands National Park. Newspaper Rock é um painel de petróglifos desenhados numa vertente soalheira de rochas areníticas. A arte rupestre lá desenhada é o registo de cerca de 2000 anos da actividade humana no local. Das tribos índias Ute e Navajo aos americanos europeus que, na minha opinião, foram lá estragar o trabalho dos outros!
O tipo de rocha predominante na região determina drasticamente qual a duração deste tipo de gravuras. As rochas sedimentares têm um processo de erosão mais acelerado e, por isso, é muito possível que em poucos séculos estas gravuras desapareçam através da acção dos agentes erosivos. E, se isso é válido para o futuro, é válido para o passado… Quantas já devem ter desaparecido para as areias do deserto e leitos dos rios.
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A arte na pré história
Ficamos mais de meia hora fascinados pela arte que temos diante dos nossos olhos. Admirando a precisão do traço, a delicadeza do desenho, e que história terá por detrás. Ambientes de caça, animais, ferramentas, figuras humanas e talvez alienígenas. Fica à mercê da nossa imaginação interpretar a mensagem dos nossos antepassados.
Concluímos também uma vez mais, que os lugares eleitos para este tipo de actividade não são escolhidos ao acaso. Olhamos em redor, e estamos num anfiteatro natural, de luz fabulosa e florestado por árvores e arbustos que no Outono nos arrebatam com as cores da estação. Repito a mim mesma: viajar no Outono traz-nos o frio, mas é o pequeno preço a pagar para poder fazer parte, por uns momentos, de cenário tão idílico. Nada que um bom equipamento não resolva. Estou a usar pela primeira vez equipamento Klim e confirma-se que é dos melhores que já usei.



Canyonlands National Park
A Indian Creek Scenic Byway é feita de imensas planícies com vista para uma montanha que se agiganta. Está agora com o cume revestido de branco para nos recordar a cada milha porque fora dos nossos fatos está um friooo! Mas também nos mantém o sempre presente receio de gelo na estrada a qualquer momento.
Olhar o perfil ondulado do traçado à nossa frente faz-nos novamente pensar ser gelo. O João volta ao modo de condução suave, de baixa velocidade e olhos bem abertos. O modo ideal para estar preparado para os muitos veados que nos saltam ao caminho de repente. Se olhar em redor a vegetação baixa nos cria a ilusão de que antever a sua presença é simples, o modo repentino com que nos surgem confirma-nos o contrário. Obrigam-nos a parar, e eu aproveito a ocasião para tirar as luvas e colocar outra vez a mão nas partes brancas da estrada. João não provei, mas isto branco é sal! Muito sal! Não há neve nem gelo, mas já houve.

Arches National Park
É no Arches National Park que estacionamos depois de uma curta paragem na cidade de Moab. Gasolina e farnel garantidos seguimos para umas horas em modo caminhada, para conhecer os famosos arcos do parque natural de mesmo nome. Dizem que fora outrora casa de dinossauros e as camadas de solo esverdeado que se destacam por entre as cores avermelhadas guardam vestígios do período Jurássico.
Caminhar dentro do equipamento de motociclistas é uma nova aventura. Os 10 graus de temperatura exterior parecem-nos agora 30 e por muito que já tenhamos despido as camadas estamos em sofrimento térmico. As pessoas normais observam-nos intrigadas, e alguns questionam-nos se não é difícil caminhar assim. É! Mas não vamos deixar o Arches National Park sem percorrer alguns dos trilhos que nos levam aos lugares mais belos da região.
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Desfiladeiro do rio Colorado e a Byway128
O nosso dia começou novamente às 6 horas da manhã e às duas da tarde, ainda tínhamos a ideia de dormir em Moab. Moab é pequena cidade entre Canyonlands e Arches National Park, e uma das poucas com opção de alojamento num raio de mais de 100 km. Desculpem. Isto é terra de milhas mas o nosso cérebro está em quilómetros e matemática a esta hora não me está a apetecer. Olho novamente para o mapa da região e desafio o João: Só nos faltam percorrer os cerca de 40 km da Byway 128, no desfiladeiro do rio Colorado e voltar para trás. Não queres continuar e dormir em Capitol Reef?


O João é que manda! Afinal, é ele quem tem de conduzir a Harlona, como lhe chama. Não temos alojamento ainda marcado, mas pelos preços que rondam os 200 dólares por noite em Moab, encontrei outro de melhores condições a duas horas de distância em Hanskville. Mas continuei sem reservar nada. A verdade é que quando um diz mata o outro diz esfola e seguimos para o plano B!
Estávamos parados na berma de uma deserta estrada para reforçar energias quando um simpático senhor americano pára no seu carro desportivo vermelho. Veio falar connosco para saber para onde iríamos pois há menos de 2 km muitos veados se atravessaram no seu caminho. ”Nice to see, bad to hit! Espeacially if you’re riding a motorcycle” Preocupado connosco avisou-nos para avançarmos naquele sentido com prudência. Também ele era um motociclista, e não seguiu tranquilo sem nos alertar. Obrigado!
Hanksville
Chegámos a Hanksville já depois do pôr-do-sol com a Harley Davidson novamente na reserva! Quando vimos o dinossauro símbolo das bombas de gasolina Sinclair respirámos novamente de alívio. A pequena etapa de auto estrada que tínhamos acabado de fazer revelou a necessidade extra de gasolina para a ocasião. Vamos considerar que o João se possa ter entusiasmado em algum momento a testar o motor …
Continuávamos apenas com uma única opção de dormida em Hanksville… nos mesmos absurdos 200 dólares por noite (e sem pequeno almoço) que me estavam a custar pagar. Pelo caminho fui pesquisando opções na região, mas precisavam todas de Sonasol e, naquela hora, não me estava a apetecer fazer limpeza.
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A caminho do Capitol Reef National Park
João se andarmos mais 60 quilómetros encontramos o Capitol Reef Resort que está a 130 dólares por noite. A diferença dá para o jantar e a gasolina da Harley! Tomar essa decisão com o céu ainda luminoso, e no meio de uma pequena povoação torna tudo menos dramático. Mas mal saímos da civilização mergulhamos numa escuridão infinita, e damos por nós a concluir que quebrámos a nossa própria regra número um: não conduzir de noite.

A luz da Harley Davidson deixa algo a desejar e os sinais amarelos na estrada informam a forte presença de veados. Aqueles cerca de 60 quilómetros demoraram mais de uma hora a percorrer. Os olhos do João não deixaram de varrer o horizonte a cada segundo e, lá atrás, os meus fizeram o mesmo trabalho. Mal seja que combinados nenhum de nós conseguisse alertar o outro que um veado atravessava e levava a família com ele. A minha posição na mota foi o mais próximo possível do João. Se uma manobra de recurso fosse necessária não era a pendura que ia dificultar o equilíbrio.
A escuridão de mais de uma hora manteve-se e, quando o Garmin Zumo XT2 nos informava que faltavam apenas 2 quilómetros para o Capitol Reef, ainda duvidávamos ser possível existir uma povoação próxima. Estava o escuro mais escuro que tínhamos visto na vida. Foram 650 quilómetros de um dia que nos pareceu uma semana num só, e quando estacionámos aquela Harley Davidson em segurança agradecemos uma vez mais. Sabemos que levamos connosco protecção divina nesta viagem pelos USA! Obrigado.
🏠Alojamento em Torrey, Capitol Reef
Dia 9 – Torrey – Las Vegas


Petroglyphs Panels



Scenic Byway 12 numa viagem pelos USA
As cores de Outono já não são uma novidade na paisagem, mas não deixam nunca de maravilhar. Entramos na Scenic Byway 12, uma das mais famosas, e panorâmicas, estradas numa viagem pelos USA, rumo ao Bryce Canyon e ao Zion National Park. O céu divide-se agora em duas faces: a azul a sul iluminada pelo sol, e cinzento escuro a norte carregada pela neve que vai cair em breve. No território entre os dois estamos nós, e a Harlona, que sobe agora uma montanha onde as bermas da estrada já acumulam montes de neve caída recentemente. O coração volta a parar, e o frio não nos faz pensar em abrir a viseira do capacete.
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Escalante



Melhores estradas para uma viagem pelos USA : Scenic Byway 12
Zion National Park
Nas portas do Zion National Park a chuva já tinha chegado e, enquanto mostrávamos novamente o cartão America the Beautiful no controlo de entrada, a menina que nos recebeu comentou: vai começar a nevar. Não é que não estivéssemos ambos já conscientes dessa previsão, mas ela falou para nós com uma clara vontade de ser mais expressiva: o que raios partam estão aqui vocês a fazer de mota!?

Seguimos a Interstate 15 para rumar a sul, e às temperaturas mais amenas de Las Vegas. Durante os 300km que se seguiram, rodámos motivados pelo restaurante italiano Grimaldi’s que tínhamos visitado há uns dias atrás na nossa estadia na cidade. É hora de começar uma nova etapa desta rota, com as camadas térmicas dentro da bagagem.
🏠Alojamento em Las Vegas
Dia 10 – Las Vegas – Palm Springs
Quase dava para sair de t-shirt à rua hoje! Diz o João já com saudades do calor. Não vamos exagerar. Está sol em Las Vegas mas os 13 graus às 8 da manhã continuam a exigir uma camada debaixo do fato. Se bem que para as temperaturas onde andámos nos últimos dias pelo Utah, está tropical. Do quarto do Residence Inn Las Vegas espreitamos a azáfama de luzes e edifícios do centro e, no horizonte mais distante, as montanhas de onde fugimos parcialmente escondidas por nuvens cinzentas carregadas de neve. Parece que esta noite por lá, o dress code da festa nos céus foi branco.
O Residence Inn Las Vegas é afastado da mediática (e de controverso significado), rua Strip. Mas, foi nele que encontrámos um preço mais simpático por uma estadia num alojamento de classificação excepcional. E é mesmo! Até no pequeno almoço. As janelas do quarto dão para abrir! Se há coisa que me incomodou nos colossais hotéis de infinitos andares do centro da cidade, é o facto das janelas não abrirem. Provavelmente para os bêbedos na cidade não se atirarem em tentativa de voo sob efeito de substâncias. Logo, aquele hábito matinal de arejar o quarto entre estadias não é cumprido.
Saí para a rua cheia de panquecas no estomago! Na falta de pão de qualidade por esta terra, as panquecas feitas na hora são a minha opção de pequeno almoço há uns dias. O João já fazia o puzzle das bagagens na Harlona quando pediu ao Garmin para o levar à bomba de gasolina mais próxima. Está ciente de que hoje é dia de atravessar o deserto de Mojave, e percorrer mais um bocadinho da Route 66, por áreas mais remotas.
Mojave National Preserve
Já viste aquele comboio? Na imensidão de Mojave National Preserve, viaja agora ao nosso lado um comboio infinito. Não comecei a controlar o tempo desde que nos acompanha, mas já passaram mais de dois minutos desde que estou com o smartphone a filmar e, aquele comboio carregado de contentores, continua a passar sem fim à vista. A travessia do Mojave Desert é interrompida algumas vezes pelas passagens de nível ao longo do percurso. Algumas, estão já sem guardas levando-nos a duvidar se estão desactivadas ou não. Assim que cruzamos aquele piso de tábuas desalinhadas, e olhamos para o lado, a vegetação no meio da linha diz-nos que o comboio hoje em dia segue outro carril.
O depósito da Harlona que saiu cheio de Las Vegas, já levou um bom avanço nos 250 quilómetros que fizemos até voltar à Route 66, agora no deserto. O João vê uma bomba de gasolina e pára para abastecer. Ele bem tenta manter a Harley sem o emoji amarelo no ecrã, mas aqueles quase 8 doláres do preço por galão não facilitam a vida do homem! Ainda há menos de 3 horas atrás abastecemos na cidade por 3,5 dólares. Não estávamos assim tão desesperados. Fomos embora de depósito quase meio.
Há uns dias que o Tardo não nos aparecia. A última vez que o vimos foi na travessia do Death Valley em forma de tempestade de vento e areia. Ora parece que se mudou para Joshua Tree, ou tem cá família! Fizemos o nosso piquenique improvisado numa bomba de gasolina na cidade de Twentynine Palms, procurando nos edifícios que a rodeiam a protecção ao vento que nos empurrou continuamente a Harley da posição recomendada na estrada. Provavelmente do outro lado teremos um bocadinho mais de paz sem vento. João temos de passar aquela montanha! Disse eu.
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Joshua Tree National Park
Entrámos nas Little San Bernardino Mountains para conhecer o Joshua Tree National Park. Na zona de entrada, uma fila mais comprida do que o normal atrasava a zona de controlo de entrada no parque, onde o pagamento é feito. Somos abordados no final da fila por uma menina vestida com os uniformes castanhos e verde escuro do staff dos parques naturais, de chapéu de cowboy e lenço ao pescoço. No meio da ventania pergunta-nos em modo acelerado se vamos visitar mais parques naturais nesta viagem pelos USA. Tive receio que lhe voasse o chapéu. Até eu estava com medo que me voasse o Schuberth de modular aberto, tamanha era a força do vento. Quer explicar-nos de que em vez de pagarmos a entrada única no Joshua Tree, podemos comprar o cartão America the Beautiful que por um valor menor nos dá entrada em todos os parques naturais numa viagem pelos USA.
Estamos agora no deserto montanhoso revestido por Joshua’s Trees! Aquelas árvores que crescem de forma peculiar, e que facilmente se confundem com cactos, mas na verdade são uma árvore cacto. Conhecidas pela resiliência e capacidade de sobreviver num deserto árido, e de temperaturas extremas, as raízes conseguem penetrar o solo em dezenas de metros na sua busca por água. As árvores que deram o nome ao parque natural, prolongam-se continuamente por toda a sua extensão. E, enquanto caminhamos por alguns dos trilhos, fico mais tranquila por ter calçadas as botas da mota de cano alto. Com certeza que existem por aqui umas serpentes em movimento para uns banhos de sol naqueles belos blocos de granito rosado. Não vi nenhuma, mas pareceu-me uma quintal que as serpentes procurariam.



Coachella Valley
Continuamos pelas largas curvas do Sheep Pass rumo a sul, e ao Coachella Valley. Intrigo-me acerca do nome desta estrada de curvas na montanha desértica. Não parece haver por ali muita erva para ovelhas. A montanha abre-se novamente para um vale distante quando a curta distância um manto amarelo reveste as paisagens. São os Cholla Cactus! E, se ao longe parecem algodão amarelo, de perto dão-nos a certeza de que aqueles espinhos farpados se esforçaram para não receberem contacto.
O Coachella Valley está longe de ser o que imaginamos quando as fotografias de um dos maiores festivais de música do mundo invadem as redes sociais. É rodeado de cidades que parecem inabitadas e multiplicam-se os resorts de luxo por quilómetros de extensão. O que as pessoas vem fazer para aqui? Intriga-se o João. A verdade é que, nos custa a entender o que se passa no Coachella Valley fora dos 3 dias do festival que justifique toda aquela infraestrutura. Longe do mar e praticamente no meio do deserto!
”Boss Bicth” é a grande fotografia exposta na parede do restaurante Grill a Burguer em Palm Springs que o João escolheu para jantar. Trata-se da imagem de uma senhora de cabelos bem arranjados, lábios pintados com um copo de cerveja na mão de ar divertido. Olha eu quando for velha! – Digo ao João.
A mesma senhora, agora alguns anos mais velha, andava por entre a confusão daquele restaurante tradicional que diz servir os melhores hambúrgueres lá do sítio. O local estava tão cheio que entre as mesas e as cadeiras altas ao balcão era difícil circular livremente. Sorriu-nos várias vezes e perguntou outras tantas se estava tudo bem. Era a Boss Bicth em pessoa. Jantámos outro hambúrguer sim, mas entrou para a lista dos melhores hambúrgueres da viagem pelos USA.
🏠Alojamento em Palm Springs
- Fairfield Inn & Suites Palm Desert Coachella Valley
- Holiday Inn Express & Suites Palm Desert – Millennium
- Hampton Inn & Suites Palm Desert
Dia 11 – Palm Springs – Los Angeles
A ideia era chegar a Los Angeles antes da hora do almoço. Saímos pela manhã de Palm Springs prontos para ir ver o Queen Mary na marina de Long Beach e, iniciar a partir desse ponto a subida da costa à beira mar.
Não estou certa de que tomar por caminho mais rápido as Interstates em Los Angeles seja, na realidade, o caminho mais rápido. Ainda estávamos a 150km do centro quando o trânsito na Interstate 10 começou a parar. E, até onde os nossos olhos conseguiam avistar, assim continuaria. As 4 vias não são suficientes para fluir os milhares de pessoas que ali circulam diariamente. Em ambos os sentidos estamos rodeados de carros e camiões, e a circular em marcha lenta. É um choque de realidade bem grande para quem anda há tantos dias em estradas vazias, e sem ver pessoas durante muitas horas! Já estou com saudades do deserto. Digo eu ao João.
Parece que por ali o trânsito é uma realidade tão marcada que a via da esquerda já tem um sinal que nunca tinha visto. Nela, só é permitida a circulação a veículos que transportem pelo menos duas pessoas. Dei por mim a pensar quantas pessoas teria a mota, e se estávamos em incumprimento. Sim, porque no meio daquela confusão, enquanto o João ultrapassa entre as filas, o cérebro fica lento como o trânsito.
Demorámos quase 3 horas a percorrer os cerca de 150 km/h que nos levariam cerca de hora e meia em condições normais. Quando estacionámos por fim na marina de Long Beach. Lá estava o Queen Mary, o primeiro grande transatlântico construído pela coroa britânica a espreitar-nos.

Peterson Automotive Museum
Visitar Los Angeles tinha um grande, e principal objectivo para o João: visitar a exposição Best in Low, no Peterson Automotive Museum. Ansioso porque o museu fechava às 17h, ainda não era meio dia quando almoçava a correr uma pizza num restaurante italiano, que afinal servia pizza americana. Tem calma que ainda é cedo! Dizia eu. Mas, o facto, é que em Los Angeles fazer 10km pode demorar uma hora e 30 infracções.
Ao contrário do que imaginávamos, pelas Américas não vimos pelas cidades muitas motas a passar. Mas, apesar da pouca presença das duas rodas no trânsito, os condutores americanos são, de forma geral, bastante respeitosos e agradáveis. Mal sentem a Harlona a querer fugir de uma marcha lenta, e consequente técnica de equilíbrio por entre o trânsito, afastam-se para nos dar passagem. Eram duas horas da tarde quando entrámos no parque de estacionamento do Peterson Automotive Museum, e eu vi o primeiro parque para motas desde que chegámos aos USA. Na dúvida se pagaria tal como os carros, saí da mota e fui perguntar na entrada. Afinal, estacionar ali iria custar 10 dólares por cada hora, fiquei bem feliz em saber que as motas podem estacionar grátis.
Viagem pelos USA: uma tarde no museu
Passámos 2 horas no museu a percorrer os 3 andares da exposição. O João estava frenético e chamava-me para mostrar com entusiasmo todos os carros. Na sua maioria, precisei de óculos de sol para os ver bem. As cores das pinturas, com lantejoulas, variam entre o verde alface, rosa choque ou laranja fluorescente, todos com pára-choques e motores dourados ou prateados. É muita informação para um olhar só. Só animei quando vi o Kitt!! Aquele carro que fez parte dos meus dias na infância a acompanhar a série O Justiceiro. Estava ali ao meu lado e a luz vermelha ainda se mexe em cima do para-choques! Noutra zona do museu encontramos os carros dos filmes icónicos do cinema: Thelma & Louise, Scooby-Doo, Oceans Eleven, Batman, Cars, Fast and Furious… Só não vi do 007. Provavelmente porque ele não deixa nenhum inteiro.
A tarde no museu passou num ápice e estávamos agora a 10km (e cerca de 50 min) das ruas mais famosas de Los Angeles: Rodeo Drive, West Hollywood, etc. Escolhemos fugir do trânsito e terminar o dia à beira mar, no Santa Monica Pier a assistir ao pôr-do-sol, naquele que também é o ponto onde termina a famosa Route 66. Um marco muito famoso numa viagem pelos USA.
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Santa Monica Pier – The End of 66 Trail
Chegar a Santa Mónica já é uma experiência surreal. Chegar a Santa Mónica num final de tarde de luz perfeita é surrealmente lindo. Ali estava o Pier (pontão) que tínhamos visto apenas no ecrã. A entrar pelo Pacífico assente em estacaria de madeira, com pequenos edifícios coloridos e uma azáfama de pessoas em redor. Caminhar no Pier de Santa Mónica é sentir o cheiro do mar e da feira ao mesmo tempo. Pelos pequenos quiosques que por ali se encontram, o cheiro dos fritos invade-nos de imediato. E, alguns tinham tão bom aspecto que decidimos provar. Não perguntem o nome, apontámos para o prato de uma senhora e dissemos que queríamos igual. Uma espécie de panqueca frita, com abóbora, canela e gelado de baunilha.
No areal de Santa Mónica, rodeados de pessoas sentadas na areia, pelicanos e gaivotas, o sol despediu-se de mais um dia. E deixou um novo espectáculo alaranjado nos céus.



🏠Alojamento em Los Angeles
Dia 12 – Los Angeles – Cambria Beach
Levantámo-nos mal o sol nasceu para tentar fugir de Los Angeles sem a loucura do trânsito. Para quem anda há uns dias nos USA em torno dos parques naturais, da tranquilidade das montanhas e sua beleza, chegar a LA é um choque para dois motociclistas. Na verdade, aqui fizemos apenas um desvio para que o João conseguisse ver o museu que tanto o encantou. Agora, é hora de voltar às montanhas e à serenidade que as rodeiam.
Entrei na sala de pequeno almoço do Hyatt Place Los Angeles pronta para fazer as minhas panquecas. Há doze dias em viagem pelos USA e ainda não ficámos em nenhum hotel que não tivesse uma máquina de fazer panquecas. É só colocar a massa fresca e esperar os dois minutos da cozedura. O João fica pelos seus ovos com bacon, eu preciso de algo mais parecido com pão. Enquanto me preparava para tratar das minhas panquecas, um menino pequenino chegou a olhar para mim. Queres uma panqueca? Perguntei. Sim! Disse ele com a timidez de uma criança, enquanto dizia à avó com entusiasmo que já tinha visto uma máquina daquelas noutro sítio, e que fazia panquecas. Fiz panquecas os dois!
O trânsito de Los Angeles parece não ter uma hora em particular para dar descanso. Demoramos mais de uma hora a sair da cidade por entre intermináveis filas de trânsito lento na Interstate 405. Eram apenas 7 horas da manhã. Quando colocámos os olhos no Pacífico, em Malibu Beach, finalmente sentimos que íamos sair daquela loucura. Repentinamente, não perguntei onde se enfiaram, todos os carros desapareceram e estávamos agora com o mar à vista, admirando as lindas casas de madeira à beira mar e as curvas da Pacific Coast Highway.

Santa Barbara Pier
Se no dia anterior no Pier de Santa Mónica podíamos apenas caminhar, hoje no Pier de Santa Barbara podemos entrar com a mota. Avançamos pelo pontão de tábuas de madeira rodeados pelas águas do Pacífico. Ao nosso lado as gaivotas e os pelicanos criavam a sua banda sonora e, no fim do percurso, estavam as construções de arquitectura tradicional, em cores pastel, que apenas conhecíamos do cinema.
Reservámos um alojamento à beira mar para terminar o dia, e estávamos determinados em assistir ao pôr-do-sol nos bancos de madeira que tem na areia. Passámos pelo Sand Pebbles Inn ainda não eram duas da tarde, mas ainda com muitos quilómetros para fazer. O troço da Pacific Coast Highway está interrompido por causa da queda de uma grande ponte. Fazer a rota costeira até São Francisco é agora impossível e, dada a montanha que separa a alternativa mais próxima, ir e voltar pelo mesmo caminho foi a nossa opção para conhecer uma das rotas panorâmicas mais famosas de uma viagem pelos USA.

Focas e leões marinhos na costa do Pacifico
João vamos ver focas! Isto tem aqui muitos pontos de observação de focas. Dizia eu, enquanto desenhava o percurso. Não são focas! São Leões Marinhos! Dizia ele. Mas devem estar lá à tua espera. Comentou com ironia.
Entrámos no parque de terra batida do Elephant Seal Vista Point. E não é que elas lá estavam mesmo à nossa espera? Espreitei dos passadiços de madeira para o areal e eram infinitas! Num final de tarde, com o sol a espreitar timidamente, dezenas de leões marinhos repousavam na areia. Uns, alternavam o método dormir com o método refrescar num mergulho. Pelo caminho, decidiam lutar com os parceiros em demonstrações de agilidade que não imaginaríamos em tais animais.
Ficámos por ali quase uma hora, a observar aquele espectáculo em plena natureza. Mas ainda chegámos a tempo do pôr-do-sol aos banquinhos de madeira à beira mar. Com o vento frio a soprar e o som do mar agitado, ficámos de fatos da mota a olhar o horizonte.

🏠Alojamento em Cambria Beach
Dia 13 – Cambria Beach – Oakhurst
Parece-me que o Sand Pebbles Inn tem tido problemas com as toalhas brancas dos quartos. Imagino que por isso, no parque de estacionamento, existe uma zona que indica toalhas em fim de vida para utilização diversa. Mesmo a jeito para a necessidade do João limpar o banco da Harlona que, apesar de não estar revestida de gelo, está com os bancos todos molhados! Que ideia fabulosa. Vou fazer o mesmo em casa. Disse eu ao João. Citando o pano da loiça, e as toalhas brancas, para as suas multiutilizações indevidas.
Estamos ainda no parque de estacionamento a ligar os intercomunicadores, quando nos sentimos observados por um casal de americanos de cabelos grisalhos. Afinal, estamos na nossa rotina matinal de ligar os Sena 50s, e a emitir sons que podiam muito bem ser a linguagem dos Minions. Não olhem para nós com essa cara! Eu bem vos vi ontem a carregar a pinga para o quarto! Pensei eu, recordando as várias garrafas de vinho que levavam abraçadas. A Califórnia é uma região vinícola gigante e, por aqui, existem zonas para degustação de vinho em todo o lado. Mas creio que, no caso daquele casal, foi mais do que uma degustação.
Saímos novamente mal o sol nasceu. Os nossos dias de viagem pelos USA assim têm sido: terminam cedo e começam cedo. Com o ritmo diário que temos andado, suspeito que quando chegarmos a Portugal vamos precisar de férias. Mas não há como relaxar nesta terra com tanta coisa a explorar! As nossas viagens cansam o corpo, já a alma, essa fica muito mais leve, e muito mais rica.
Sequoia e Kings Canyon National Park
Cerca de 3 horas de viagem, e 300, quilómetros nos separam agora do Sequoia e Kings Canyon National Park. E, pela Califórnia já concluímos um facto: entre o mar e a montanha, existe sempre um Alentejo! As longas planícies que atravessamos, são feitas de rectas que ondulam num horizonte infinito, por entre os campos dourados onde os animais pastam em sossego. Pelo caminho, colinas revestidas de vinhedos estão agora nas cores da estação, intercaladas por plantações de amêndoas, pistachios, laranjas, romãs e outras que não conseguimos distinguir sem parar. A única grande diferença é: estamos na hora de almoço e, pela Califórnia, não encontraremos um cozido de grão, umas migas de espargos, um ensopado nem uma sericaia.
Regressámos ao frio árctico, à montanha e os nossos olhos voltam a brilhar com mais fascínio! O nosso Garmin Zumo XT2 volta a ficar descontrolado, e a indicar uma frenética subida na altitude, enquanto a Harlona testa o seu comportamento dinâmico nas mil e uma curvas de que a General Road é feita.
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A chegada à floresta das árvores gigantes
Chegamos ao ponto de entrada sul no parque natural e, as primeiras sequoias que encontramos estão a delimitar a estrada de forma impressionante. Fizemos apenas alguns quilómetros e, em todo o percurso, estamos continuamente a olhar para cima em busca do topo das árvores que são o maior ser vivo do mundo. Não cabem numa imagem e não cabem nos nossos olhos, mas tocam o céu com certeza. A caminhada de cerca de 4 quilómetros dentro dos fatos de motociclistas para ver a Sherman Tree foi suficiente para ganhar calor num dia em que estavam 3 graus na montanha. João isto vale mesmo a pena? Sim! É a maior árvore do mundo, dizia ele entusiasmado.
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Percorremos toda a extensão do parque natural enquanto estrada pavimentada encontrámos e, além da imensa alegria de ver as gigantes sequoias, a imensa tristeza acompanhou-nos em igual proporção. Uma grande parte do parque natural foi dizimada por um severo incêndio e, muitas não resistiram. As mais antigas, têm os troncos pretos a relembrar o ataque das chamas a que sobreviveram. Por entre os bosques ainda verdejantes, as pequenas árvores de folha caduca acenam-nos ao sabor do vento nas cores vivas entre o amarelo e o vermelho. Assim como uma série de trepadeiras e arbustos rasteiros. Levam-nos a imaginar aquela imensidão de cores antes da floresta ter sido largamente devastada. Os veados de todas as idades saltam-nos ao caminho, e é com alguma dor no coração que sentimos um profundo pesar pela forma dramática como o seu habitat natural foi invadido. A Natureza faz agora o seu trabalho na luta contra o Homem: renasce no seu ritmo.

O sol despedia-se no horizonte quando atravessávamos a grande cidade de Fresno. Em plena hora de ponta e, numa cidade cuja grande dimensão desconhecíamos, voltamos às filas de trânsito por cerca de uma hora. Pelo caminho, na Highway 168, e por entre o trânsito, encontramos duas RT’s. Highway patrol a deslocar-se em grande estilo e a cumprimentar-nos com um vigoroso aceno. Oakhurst é a próxima paragem, nos limites do Yosemite National Park. Não achavam que nos tínhamos esquecido dele pois não?
🏠Alojamento em Oakhurst
- Fairfield Inn & Suites by Marriott Oakhurst Yosemite
- Yosemite Southgate Hotel & Suites
- Holiday Inn Express & Suites Oakhurst-Yosemite Park
Dia 14 – Oakhurst – Yosemite Tour
Esta noite Yosemite decidiu congelar a Harley Davidson e oferecer-nos uma experiência grátis de crioterapia no rabo. Com já tantas milhas de estrada nestes dias provavelmente achou que poderíamos precisar. Sim! A Harlona está revestida de gelo às 8h da manhã, mesmo estacionada ao sol. O banco que habitualmente é preto, está agora mais parecido com branco. Mas a Harley é, surpreendentemente confortável. Obrigado Yosemite! Não estamos a precisar de gelo no rabo. Disse eu enquanto limpava o banco da mota com um lenço de papel.
As estradas pelos parques nacionais nos USA estão todas fabulosamente bem cuidadas e, revelando a preocupação com a segurança de quem por lá circula, nota-se que o piso é construído com material mais rugoso e anti derrapante. Ali, quem sofre são os pneus, a fazer o seu trabalho de nos manter com as duas rodas devidamente no solo. Ainda assim, com dois graus na rua, o João avança com todo o cuidado já que a floresta em redor ostenta generosas quantidades de neve.
Em breve as estradas de maior de altitude vão fechar durante o Inverno, e nós ainda tivemos a sorte de as conseguir percorrer. Lembram-se que era o Yosemite a nossa segunda paragem quando iniciámos a nossa viagem pelos USA? Vindos do Lake Tahoe nessa data o Tioga Pass estava temporariamente fechado por causa da neve. A única forma de atravessar o extremo norte do Yosemite. No decorrer da viagem fomos consultando a informação no site oficial do parque nacional, e aqui estamos nós a estacionar em Mariposa Grove of Giant Sequoias.

Mariposa Grove of Giant Sequoias
Quando entrei no autocarro que circula o dia todo a transportar os visitantes entre o parque de estacionamento e o início do trilho pedestre, levei todas as minhas camadas térmicas vestidas. Só para me lembrar no primeiro quilómetro de caminhada que, apesar do frio na rua, ia conseguir sentir muito calor. Lembro que não existe frio a andar de mota, existe o equipamento certo. Que é incompatível com exercício físico.
No início da manhã, e em época baixa, os quilómetros que se seguiram de caminhada foram por entre uma nova floresta das gigantes sequoias. Longe do ruído de pessoas e viaturas a circular, o som da montanha é um misto do vento que sopra suavemente entre o arvoredo e os animais que por ali vivem. Ao nosso lado, um grupo de veados caminha pacificamente enquanto nos fita intrigado. Pedimos desculpa pelo barulho que o nosso fato da mota faz a cada passo, não queríamos perturbar o sossego da sua casa. É um grupo de fêmeas que se fazem acompanhar dos seus filhotes.

Yosemite Valley numa viagem pelos USA
Voltamos à estrada para mergulhar no coração do Yosemite Valley e, do alto da Wawona Road, gritamos dentro do capacete: uauu! O North Dome já se avista no fundo do vale. É a montanha granítica que se agiganta em tom esbranquiçado que contrasta com o amarelo de Outono da floresta. O rio Merced por lá serpenteia e garante que ao longo do seu curso as árvores o acompanham na sua dança pela natureza. Sem sinal de vento, as águas espelham as cores outonais. Suspiramos dentro do capacete ao contemplar tão maravilhosa visão. Ali entendemos porque é um dos mais movimentados parques nacionais numa viagem pelos USA, e também concluímos que andar por ali no Verão não deve ser nada agradável.

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Tioga Pass
Nos USA tudo é gigante. Até a distância do Yosemite Valley ao extremo oposto do Tioga Pass, a sua estrada de maior altitude e uma das mais belas estradas de montanha do mundo, dizem. São mais de 100 km a percorrer até ao topo da montanha e os mesmos para voltar tudo para trás. A monotonia do traçado na parte inicial do percurso leva-nos a questionar se valerão a pena. Afinal, o túnel de pinheiros estilo nórdico prolonga-se por dezenas de quilómetros, e a única emoção é o receio/expectativa de ver um urso. Quando nos começa a dar o sono, a montanha percebe que tem de intervir e a curva seguinte abre-nos de repente um anfiteatro natural com vista para o Half Dome. Chegámos à parte fabulosa do Tioga Pass! Aquela que já estávamos a duvidar existir.
Os lagos estão agora parcialmente cobertos por uma fina capa de gelo, e entre os troncos dos pinheiros avistamos um cenário que se assemelha às praias do caribe. Não fossem as temperaturas próximas de zero, iria jurar que o vislumbre de água azul turquesa em redor das areias brancas dos blocos de granito, são num destino tropical mais distante. Por lá encontrámos um dos mais panorâmicos lugares da nossa vida para o nosso pique nique. Aquelas sandes de pão do dia anterior com queijo creme e batatas fritas souberam a costeleta na brasa. Mentira, não vamos exagerar.


Tioga Pass acima dos 3000 metros de altitude
O sol já anunciava poucas horas de luz quando no topo do Tioga Pass percorríamos as mil e uma curvas que contornam as maravilhosas paisagens naturais que o Yosemite ostenta. A entrada norte do parque natural é rodeada pelas pronunciadas vertentes que marcam a transição no tipo de rocha dominante. O granito fica para trás e os instáveis terrenos de margas explicam porque, por ali, a estrada desafia os limites do equilíbrio a cada degelo. É a descida para o Death Valley muito em breve e um novo ambiente natural se forma.
Oakhurst volta a ser o local onde terminamos o dia, depois de uma rota circular pelo Yosemite. O dia seguinte será de nova incursão no parque nacional mas, para já, vamos comer o hambúrguer número infinito desta viagem pelos USA.



🏠Alojamento em Oakhurst
- Fairfield Inn & Suites by Marriott Oakhurst Yosemite
- Yosemite Southgate Hotel & Suites
- Holiday Inn Express & Suites Oakhurst-Yosemite Park
Dia 15 – Oakhurst – Santa Cruz
Em quase duas semanas de viagem, foi no Yosemite que dormimos pela primeira vez duas noites no mesmo sítio. Tínhamos logo de acertar no pior pequeno almoço no hotel que encontrámos. O Yosemite Southgate pode ter um quarto gigante e limpo, mas o pequeno almoço obriga-nos a ir à mota buscar o pão do dia anterior para tirar a barriga de misérias. Por 100 dólares por noite, não podemos queixar-nos muito afinal, só o pequeno almoço foi terrível. Não compensava ainda assim, pagar os cerca de 150 a 180 dólares dos hotéis vizinhos. Pelo menos, hoje a Harlona não acordou revestida de gelo. Ninguém percebe esta terra de exageros.

Glacier Point
Não podíamos ir embora do Yosemite sem fazer a subida do Glacier Point, uma estrada sem saída que nos leva ao topo das montanhas para admirar aos nossos pés o Yosemite Valley, o curso do rio Merced entre o arvoredo nas cores de Outono e o soberbo Half Dome. O Half Dome é uma cúpula de granito e a estrela do Yosemite, na Serra Nevada. Do alto dos seus quase 1500 metros de altitude, agiganta-se em tão nobre paisagem e, só de imaginar que existe um trilho pedestre para subir aquelas paredes quase verticais, já dá vertigens ao longe. Nem de capacete!
É o nosso último dia de viagem pelos USA e, de facto não poderíamos ter escolhido melhor lugar para nos despedirmos dos parques nacionais, e agradecer todas as imagens maravilhosas que nos deixaram cravadas na memória para sempre. Em mais um dia soalheiramente gelado, o nosso coração está quente. De felicidade.
Se às 8 horas da manhã os quase 20 quilómetros que fizemos até ao Glacier Point nos fizeram crer que em breve iriam fechar a estrada, o movimento súbito depois das 10h confirmou-nos que afinal chegar cedo é o melhor remédio. Ainda assim, pelo facto de não nos cruzarmos com um único carro, o frio na montanha, a neve amontoada entre as zonas sombrias da floresta e o piso com um brilho duvidoso, a Harlona avançou o mais devagar, e suave, que o João conseguiu. Fizemos uma nova paragem para teste de tracção, tirámos as luvas e colocámos a mão na estrada. E, se até aí já vínhamos os dois em silêncio, pudemos relaxar. Não é gelo! Está só um calor esquisito e a estrada reflete a humidade da noite.

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Highway 140
Mariposa foi o rumo que escolhemos para nos despedir do Yosemite, pela rota panorâmica da Highway 140. Tomamos como rumo o que rio Merced traçou na sua viagem para desaguar no Pacífico. Ou para se juntar na odisseia com qualquer outro rio que encontre entretanto. O pronunciado vale que escavou, forma ao longo de mais de 100km um sinuoso traçado entre colinas abruptas. No final da época seca, o dourado dos campos salpicado pelo verde de pontual arvoredo lembra-nos Trás os Montes, e as suas paisagens entre o xisto. Há um bocadinho de Portugal no mundo e Portugal tem um bocadinho do mundo em si. Um dia os continentes foram todos um só, e deve ser essa a explicação.
As três horas de viagem pelo caminho mais rápido entre Mariposa e Santa Cruz, foram novamente na travessia do Alentejo. O João, que é um novo homem na sua relação com o depósito de gasolina, sabe que, mesmo na Interstate, não deve desperdiçar a oportunidade de abastecer a Harlona. Ao avistar a sinalética da Chevron no horizonte, toma a próxima saída para garantir autonomia e, ter oportunidade de ir embora caso o preço por ali seja inflacionado.
A Harley Davidson na América
Acabámos de estacionar a Harley na bomba de gasolina para abastecer, quando uma outra Harley estaciona ao nosso lado. Sabem aquelas a que de facto chamam ferros e para conduzir precisamos de um contínuo exercício de alongamento de braços? O condutor, alto e magro, tinha uma barba e cabelos compridos, um colete de pele cravado com muitos símbolos e um capacete preto opaco estilo penico. Com aspecto de quem é atirado para o chão inúmeras vezes. De cara fechada a fitar-nos, até tive medo que viesse bater-nos. Afinal, o João estava com um casaco com símbolos BMW, e aquele era um Harleyista puro. Podia tomar isso como ofensa.
Veio na nossa direcção com um sorriso de entusiasmo! A perguntar-nos de onde éramos e o que estávamos ali a fazer. Ficou ainda mais eufórico quando dissemos ser portugueses. Partilhou connosco que o avô era da ilha de São Jorge, nos Açores. De onde vieram, para onde vão. Muitas perguntas sobre a nossa rota, tentando entre respostas dar-nos algumas dicas de boas estradas. Muito simpático e nós com medo que ficasse ofendido por causa do casaco betinho do João. Quando dissemos que íamos dormir a Santa Cruz ele ficou ainda mais frenético dizendo que a casa dele era lá.
Fiquei a imaginar fazer os mesmos 600km de distância do que nós naquela mota de aspecto sofrido. Estava feliz! É mesmo o que importa, e é mesmo essa a motivação que nos leva a cometer loucuras em duas rodas. Mas a Electra Glide é um sofá com rodas, pode não ter um motor endiabrado de uma BMW, pode necessitar de mais afinco para accionar aqueles travões Brembo, mas conforto não lhe falta. Tem sido uma brava companheira.
Santa Cruz Pier, Pacific Coast
No Pier de Santa Cruz, mesmo a tempo do último pôr-do-sol da nossa viagem pelos USA, acabamos de estacionar a Harley quando ouvimos ruídos de animais. Não são só gaivotas e não são só pelicanos. Encontrámos focas. Sim! Desta vez são mesmo focas. São às centenas e descansam relaxadas na estacaria de madeira do pontão. Alternando actividades de reclamação entre elas, mergulhos nas águas do Pacífico com umas sestas relaxantes. Que mágico observar os animais no seu habitat natural.


Na mundialmente conhecida casa do surf, o dia termina com o sol a revestir o horizonte das suas cores fortes cativantes. Encerrando o modo de passeio desta viagem com um toque de perfeição. Como todas as milhas que percorremos neste país. Perfeitas e a prova de que seguir sempre o nosso coração, um dia nos leva a tornar sonhos em realidade. Amanhã é a última etapa de regresso a São Francisco.


🏠Alojamento em Santa Cruz
- Holiday Inn Express Hotel & Suites Santa Cruz
- Ocean Echo Inn & Beach Cottages
- Hampton Inn Santa Cruz West
- La Quinta Inn & Suites by Wyndham Santa Cruz
Dia 15 – Santa Cruz – São Francisco, fim da viagem pelos USA
Foi com o Pacífico à vista que fizemos os últimos quilómetros desta viagem, já com saudades de voltar um dia. Estávamos a cerca de uma hora de distância de São Francisco e da EAGLERIDER da cidade e por lá terminámos a fazer a conversão das milhas do painel da mota, para quilómetros. Duas semanas não foram suficientes para converter o nosso cérebro a uma nova unidade de medida. Foram apenas suficientes para concluir que há viagem há muito sonhada, se revelou à altura do sonho.
Mapa detalhado do roteiro de viagem pelos USA South West
Para consultar o mapa em detalhe, clique sobre ele ou utilize o canto superior direito para abrir directamente na página do Google Maps. Poderá fazer o zoom necessário para ver a rota em pormenor ou exportar para o GPS como preferir. Clicando no canto superior esquerdo, é também possível ler a legenda do mapa em detalhe. Pretende utilizar este mapa no seu aparelho de navegação e não sabe como o fazer? Consulte aqui o nosso artigo já publicado.
- Total de quilómetros: 7000 km
- Dias de roteiro: 15 dias
Informações práticas para uma viagem pelos USA
Já existe no blogue um artigo publicado inteiramente dedicado a informações práticas relevantes para o planeamento da viagem pelos USA. Consultar:
Viagem de mota pelos USA – Custos, documentos e informações práticas
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Deve ser muito bom viajar motivado.