Há uns tempos atrás, passaram-nos pelos olhos imagens de uma sugestiva estrada nas cristas das ravinas do Deserto de Gorafe. Lugar que já visitámos algumas vezes porque é fabuloso, tem estradas maravilhosas e calha mesmo a caminho quando rumamos a uma Andaluzia mais distante. Por sua vez, aquelas imagens revelaram-nos um percurso que desconhecíamos, e que nos encantou de imediato. Quando voltarmos à Andaluzia temos de ir fazer isto! Disse eu para o João enquanto acompanhava as storys da Jana Souza. Ela estava em plena Andaluzia num roteiro fora de estrada com a sua Yamaha T7. O detalhe principal era esse, um percurso fora de estrada não está geralmente considerado quando viajas com uma mota de touring.
Camiño de Bácor é o nome da estrada difícil descobrir. A informação sobre ela é escassa e, apenas no local conseguimos por fim entender porque já passámos algumas vezes no Deserto de Gorafe, mas nunca o tínhamos percorrido: para a ela chegar é necessário fazer uns quilómetros de estradão.


Em busca do Camiño de Bácor
Não me lembro de uma única vez que tenhamos visitado a Andaluzia em que, seja na ida ou no regresso, o nosso roteiro não faça um desvio para contemplar as mágicas paisagens de Gorafe. Mas por muito que se saiba que por ele existe uma infinita rede de percursos fora de estrada para o conhecer de outra perspectiva, esta fora a primeira vez em que considerámos por elas entrar. Até então, tínhamos-nos ficado pelas fabulosas estradas pavimentadas que o atravessam.


Se eu por um lado desafio o João com novos percursos, ele por outro tem a dose de pancada necessária para os aceitar sem hesitar. E, quando o faz, eu que vi as imagens e o mapa com mais atenção previamente, fico com o coração a mil entre a excitação e receio. Sei que a partir daquele momento já não há como voltar atrás em demovê-lo da ideia que eu própria sugeri. No meu cérebro multiplicam-se as avaliações da inclinação do terreno, com as tempestades recentes na região e eventuais valas na estrada. Com os nossos Michelin Road6GT que são pneus de estrada, com a nossa RT que é ela própria uma mota de estrada. Com a facilidade ou dificuldade de inverter uma mota pesada num estreito e íngreme percurso, etc.
Do alto do Mirador Puntal de Don Diego, olhávamos o horizonte semidesértico em busca da cumeada de uma ravina onde sobressaísse o cimentado percurso que as imagens nos tinham mostrado. Para ali chegar, deixámos para trás a Sierra Nevada que ainda espreita pintada de branco, e entrámos no estradão do Parque Megalítico de Gorafe, determinados a avançar pelo coração do deserto. Pelo menos até onde nos fosse razoável com uma mota de touring.


Camiño de Bácor descoberto e siga!
Se não ouvirem mais falar do Quilómetro Infinito, procurem-nos por favor numa das valas do deserto. Dissemos para dois simpáticos galegos de GSA’s que por ali nos encontraram e reconheceram a RT Infinita. Eles não sabiam que, em pleno Mirador Puntal de Don Diego, enquanto nos debruçávamos sobre o mapa, e de olhos postos no horizonte, íamos troçando de duas GSA’s que se aproximavam de nós. Puff! De GSA também eu! Quero ver é chegarem aqui de RT. Ríamos juntos a desdenhar uma mota que também temos em casa, porque sabemos que é sempre difícil escolher entre uma RT e uma GS. Mas a brincadeira será sempre mais forte do que nós.
Partilhámos com eles a nossa busca e, quando encontrámos por fim a entrada do Camiño de Bácor, tínhamos dois companheiros connosco que não iriam embora de Gorafe sem fazer aquela grande, e mágica, rota.


No coração do Deserto de Gorafe pelo Camiño de Bácor
Tal como a Jana nos havia referido, algures depois da Casa de Vidro no deserto, o estradão e as planícies terminam para dar lugar a um íngreme percurso, agora cimentado, na cumeada das ravinas. Quase como se aquela estreita estrada levitasse pela árida paisagem, já que de um lado e do outro, o precipício está eminente. E num ápice, somos transportados para um cenário tão surreal que nos remete aos USA e aos inóspitos caminhos que percorremos pelo Death Valley, na Califórnia.
O esquema de cores da paisagem varia entre os tons alaranjados e avermelhados que, algumas zonas, se cruzam com um roxo particular. Até onde os nossos olhos alcançam, os barrancos desnudos alternados por pronunciados desfiladeiros dominam o horizonte. Imaginamos como é ali estar ao nascer e pôr-do-sol. Concluímos que será nessas horas que temos de voltar.
Ver esta publicação no Instagram
Diria que o Camiño de Bácor tem cerca de 3 km cimentados e uns 10 km em estradão. Com uma mota de touring e pneus de estrada, voltámos para trás mal o cimento acabou, e o Garmin Zumo XT2 nos dizia que a elevação estava a diminuir. Ele foi apenas a confirmação do que os nossos olhos observavam. O Camiño de Bácor continua em abrupta descida rumo aos rios que correm timidamente nos vales. Continuar, e terminar, aquele percurso circular que nos levaria novamente ao Mirador Puntal de Don Diego requeria pneus adequados, mota adequada e com menos carga. Mas chegar até ali já valeu cada milímetro.
Não entrar no Deserto de Gorafe sem gasolina
A pessoa ainda está cheia de entusiasmo, e sem saber para que lado deve fotografar com tanta beleza em volta, que mal dá pela luz amarela no painel da RT. João a sério que viemos para o deserto com a mota com pouca gasolina? Sabem que o João só abastece quando a mota pede a reserva, e tem uma elevada fé na rede de postos de abastecimento por todo o lado. Inclusive no deserto. Não vês que não abasteci para vir fazer off road com menos carga? Diz ele todo sorridente.
Foi com alguma insistência que o convenci que, naquele ponto e a seguir o track do dia, as bombas de gasolina estariam distantes. Era necessário voltar para trás e abastecer para poder continuar. Voltar para trás não era assim tão dramático. Afinal, foi a oportunidade de voltar percorrer a fabulosa estrada GR6100 que atravessa o pronunciado vale que aninha o pueblo de Gorafe. De piso e perfeita geometria, o desvio ao track na busca de gasolina é a desculpa para revisitar e apreciar a Sierra Nevada pintada de branco no horizonte.


Se pretendem visitar o Deserto de Gorafe apenas por estradas pavimentadas aqui fica um roteiro: Deserto de Gorafe e a Rota do Megalítico. Andaluzia, Sul de Espanha
Onde dormir em Gorafe?
Existem algumas opções de estadias para pernoitar no deserto de Gorafe. O que para assistir ao nascer ou ao pôr-do-sol no local é o mais recomendado. Ficam algumas sugestões:
- Bike Cueva Gorafe (centro de Gorafe)
- Cueva Rincón Bustamante (centro de Gorafe)
- Casa de La Familia (em Baza)
- YIT Abentofail (em Guadix)
Informações práticas sobre o Camiño de Bácor
- A abordagem ao Camiño de Bácor do lado sul é a zona mais próxima do percurso cimentado, possível de fazer com qualquer mota.
- O estradão para lá chegar é um estradão simples sem grandes inclinações. Com pneus e mota de estrada requer apenas condução a menor velocidade e mais cuidadosa.
- O Deserto de Gorafe é um mundo infinito de caminhos fora de estrada. Este em particular é um percurso circular em torno da aldeia de Gorafe.
- Evitar os meses de Verão onde as temperaturas facilmente superam os 40 graus na região, ou escolher as primeiras horas da manhã para entrar no percurso.
Mapa detalhado do Camiño de Bácor, Deserto de Gorafe
Para consultar o mapa em detalhe, clique sobre ele ou utilize o canto superior direito para abrir directamente na página do Google Maps. Poderá fazer o zoom necessário para ver a rota em pormenor ou exportar para o GPS como preferir. Clicando no canto superior esquerdo, é também possível ler a legenda do mapa em detalhe. Pretende utilizar este mapa no seu aparelho de navegação e não sabe como o fazer? Consulte aqui o nosso artigo já publicado.
