Há uns anos atrás, ainda o Quilómetro Infinito não tinha nascido, rumámos à Galiza para um roteiro de viagem de mota no final do Verão. A iniciar as nossas aventuras no mundo do motociclismo, seguimos para esta região do Norte de Espanha, visitando alguns dos seus lugares mais famosos: A Guarda, Baiona, Vigo, Combarro, Sanxenxo, O Grove, Pontevedra, Santiago de Compostela e Ourense foram os principais pontos de passagem.
Todos os lugares do mundo tem algo de especial a oferecer a quem os visita mas, num roteiro de viagem de mota, esta nossa escolha na época não me deixou maravilhada pela costa galega, nem com vontade de a ela voltar em duas rodas. Altamente urbanizada e, consequentemente, com os ambientes naturais muito modificados, aquilo que já na época me encantava nas viagens de mota não encontrei por ali: natureza intocada, ausência de multidões, estradas desertas em espaços panorâmicos, tranquilidade de viajar por remotos locais.
A importância de um roteiro bem planeado
Muitas foram as vezes em que o João me desafiou a desenhar uma nova rota pela Galiza. E desde então que as minhas atenções se focam para pontos do mapa para dela fugir. Desta vez, com as previsões meteorológicas em toda a Península Ibérica a indicarem dias seguidos de chuva forte e neve nos pontos altos, a Galiza foi o lugar onde encontrámos os desejados, e raros, raios de sol na data.
E assim o clima nos levou novamente ao Norte de Espanha. Levando-nos a confirmar uma vez mais a importância que um roteiro bem planeado pode ter, alterando-nos por completo o olhar sob os locais por onde escolhemos viajar. Deixamos para trás os lugares mais turísticos, e seguimos pela Galiza descobrindo os seus tesouros mais escondidos. Pedindo-lhe perdão por um dia a termos subestimado. E daqui em diante, encontrarão a partilha em detalhe do nosso roteiro. Para que possam também vós encontrar a beleza especial da Galiza.



Sobre a Galiza
A Galiza ostenta a costa mais recortada do litoral espanhol e, uma das suas grandes peculiaridades é a presença de fendas na costa invadidas pelo mar. São as rias e os vales fluviais que se inundam consoante os humores das marés, e formam ambientes naturais únicos na natureza.
A geografia das zonas costeiras é definida pela divisão entre as Rias Altas e as Rias Baixas consoante a localização em relação ao cabo Fisterra, o ponto mais ocidental da província. Entre elas estão a Costa da Morte e a Costa Ártraba que definem a transição entre as zonas de relevo mais plano e as de relevo mais acentuado. É a natureza a definir uma localização ideal para uma viagem em duas rodas, sempre com o mar à vista.
Grandes falésias, longas praias e pequenas enseadas multiplicam-se. Cidades e vilas piscatórias, ganham vida em torno da actividade e os galegos parecem cuidar de cada pedacinho de terra, e mar, de forma preciosa. Dezenas de faróis de distintas arquitecturas estão dispostos por toda a costa como constantes guardiões do oceano. Uns cujo percurso até eles chegar nos presenteia com algumas das melhores rotas moto turísticas de região: Punta Nariga, Ortegal, Vilán, etc. Outros cuja arquitectura que ostenta nos remete a tempos tão distantes como o período romano: Torre Hércules. Um dos mais antigos faróis do mundo, e uma fabulosa obra com quase dois mil anos de existência.





Roteiro de viagem de mota pela Galiza
Dia 1 – Vila Nova de Cerveira – Mondariz | 300+ 120 km
Foi na fronteira em Vila Nova de Cerveira que deixámos o caminho mais rápido para iniciar o nosso modo viagem de mota pela Galiza. São 300 km a partir da Batalha, o nosso ponto de partida, até a Vila Nova de Cerveira. De forma a optimizar os dias de viagem, é comum sairmos a meio da tarde depois de um dia de trabalho para avançar na nossa rota, e ir mais além. É por isso que as nossas companheiras de viagem tem de ter todas algo em comum: conforto e excelente protecção aerodinâmica. Desta vez, por terras de nuestros hermanos na vizinha Espanha, a K1600GT foi a touring da Santogal BMW Motorrad que nos acompanhou. E foi a melodia do motor de 6 cilindros da BMW que nos acompanhou por quase 2000 km.

No final de uma tarde de Inverno, entre os Miradouros de Oia, Alto da Groba e o Alto de Mougás, contemplámos mais uma mágico pôr do sol. Apesar desta zona ser uma das mais urbanizadas da costa espanhola na Galiza, continua a guardar em si estes recantos entre o mar e a montanha que nos permitem avançar pela Galiza sem recorrer aos itinerários mais rápidos. Recomendamos que sejam visitados no início da manhã ou no final do dia, para que se evitem as horas de maior afluência ao local.



Procurando a tranquilidade, e os melhores preços, longe da zona costeira de Vigo e Baiona, Mondariz foi o local eleito para pernoitar no nosso primeiro dia de viagem. Parque privado para a mota, restaurante no local ou a distância de caminhada, preço justo e boa classificação de limpeza são os requisitos essenciais na nossa escolha de alojamento. Geralmente são mais fáceis de encontrar fora dos grandes centros urbanos. Sabem que gostamos de nos refugir no sossego de um desterro qualquer não sabem? Se procuram a azáfama da cidade, Vigo será a opção.
🛏️Onde dormir em Mondariz
- A Cantaruxa Maruxa (a nossa opção)
- A Casa Carballa
Dia 2 – Mondariz – Queiroso| 350 km
O Grove e a Ilha de Arousa
Apesar do foco do nosso roteiro ser especialmente a zona norte da Galiza, para nós um território desconhecido, não deixámos a Ria de Arousa sem percorrer novamente O Grove e a Ilha da Arousa. São dois dos lugares mais urbanizados da costa galega e um destino de verão muito frequentado mas, em plena época baixa, quisemos ir espreitar as praias de areia branca e águas cristalinas que por li nos encantam.



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Castro de Barona
Mesmo que o passado Celta da Galiza seja envolto em muitos mistérios, a verdade é que assim que chegamos ao Castro de Barona conseguimos de imediato imaginar o povo que por ali viveu.
Os castros são as ruínas de povoados da Idade do Cobre e da Idade do Ferro, que se encontram com maior predominância no noroeste da Europa. Construídos em estruturas predominantemente circulares, têm todos algo em comum: localização privilegiada e recursos em redor que permitam que um povoado seja auto-suficiente.
O Castro de Barona é uma aldeia do passado bem preservada. Com mais de 20 casas circulares predispostas num promontório à beira mar totalmente muralhado. Numa curta caminhada pelo seu interior, encontram-se muros defensivos, rampas para a passagem de veículos, lareira, forno, tijolos de barro… uma miscelânea de indícios de que ali viveram pessoas. E no que à alimentação diz respeito, a praia em redor ainda hoje é rica em mexilhões e peixes. Se não fossem horas de pequeno almoço, até estaria tentada em reavivar aquela lareira para uns mexilhões salteados.
A entrada no Castro de Barona é totalmente livre e grátis. Requer apenas uma caminhada de cerca de 10 min a partir do parque de estacionamento junto à entrada principal.



Cabo Fisterra e a entrada na Costa da Morte numa viagem de mota pela Galiza
O Cabo Fisterra é o mais famoso da costa de nome mais dramático em toda a Espanha: a Costa da Morte. E, quem passa ali ao lado tem de fazer o desvio para o conhecer. Fisterra em galego, Finisterre em espanhol e Finisterra em português. É um promontório rochoso de granito com cerca de 600 metros de altura à beira do Atlântico, e é a fronteira geográfica que separa as Rias Altas e as Rias Baixas na costa da Galiza.
É também o destino final para os peregrinos do caminho de Santiago, já que a Catedral de Santiago de Compostela dista cerca de 90 km do local. A assinalar o simbolismo religioso, em Fisterra se encontra o marco com o símbolo dos caminhos e a informação de km 0.


Fervenza do Ézaro
A Costa da Morte ostenta uma das mais belas cascatas de Espanha. E não é só a Fervenza do Ézaro que encanta até quem ela chega. Todo o circuito costeiro da região, e sua sucessão de praias de sonho, são mágicos. A emoldurar as pequenas vilas à beira mar, estão os extensos areais de cor clara e águas de tons turquesa. A fazer-nos sonhar com um cenário assim num dia de Verão, onde as temperaturas fora do nosso fato nos permitam um mergulho nas águas do Atlântico.
A estrada AC550 é rica em curvas à beira mar e praias paradisíacas e a Fervenza do Ézaro é um desvio para conhecer uma imponente cascata. Por lá ás águas precipitam do colossal maciço granítico, num caudal que está ainda mais agitado com as chuvas do Inverno.




Cabo Tourinan
O alojamento do dia levou-nos até ao Cabo Tourinan para mais um pôr-do-sol à beira mar. Estas colinas à beira mar, revestidas pelo verde dos campos de pastagem e pelos desenhos dos muros de pedra, fazem-nos lembrar as paisagens dos Açores. Assim como as da Irlanda. E, enquanto o sol se despede no horizonte, imaginamos o mapa da Europa. Concluímos que, de facto, um dia todas estas paisagens estavam unidas num só continente. Faz todo o sentido que preservem em si traços de consanguinidade geológica e ambientes semelhantes. A Galiza é um paraíso igual aos nossos Açores e à bela Irlanda.




A saborosa comida de conforto caseira na Casa Fontequeiroso
A curtos quilómetros da pequena aldeia de Queiroso, onde marcámos alojamento, aguardámos pelo pôr-do-sol sem a preocupação de como seria o jantar numa zona onde não existem grandes serviços em alguns quilómetros. Afinal, no momento da reserva na Casa Fontequeiroso, vimos a informação de que serviam jantar para os hóspedes.
Não imaginámos foi que seríamos os únicos hóspedes no local, e que referir que queríamos jantar seria importante. Se esse detalhe não nos ocorreu foi, provavelmente, para que pudéssemos desfrutar da hospitalidade galega e do ar maternal da dona da casa de hóspedes. Assim que lá chegámos, já a noite tinha caído, ficou de imediato agitada a pensar no que nos poderia servir de refeição. Não nos deixaria à fome. Não fizemos nenhuma pergunta acerca do menu e sentámos-nos na pequena mesa da sala comum à beira da lareira.
Os galegos são de uma hospitalidade maravilhosa
À luz das velas com uma toalha de motivos florais naquela mesinha redonda, fomos deliciando-nos com uma comida caseira maravilhosa preparada para nós à última hora. Salada com cogumelos salteados, manga e verduras. Onde o sabor do azeite de boa qualidade faz a magia final. Galinha caseira igual às que a minha mãe nos cozinha, guisada com um tempero simples para que todo o seu sabor possa estar no auge. A acompanhar, grelos cozidos na água do cozido galego, cheio de carnes e feijocas. Que maravilhosa refeição e recepção. Sentimos-nos em casa das nossas mães, a ser mimados depois de um longo dia de Inverno a andar de mota.
Lá fora, o cão pastor da vizinha guardava a K1600GT, e eu espreitava-o da pequena janela daquela casa de pedra. Achei que também ele merecia algo saboroso por ter deixado as vacas para guardar a nossa mota. Aposto que ele sabia que por ali ninguém roubaria nenhuma, mas escolheu guardar a mais bonita.
🛏️Onde dormir em Fontequeiroso
- Casa Fontequeiroso (a nossa opção)
- Lusco Fusco Suites
Dia 3 – Queiroso – Praia de Razo| 180 km
Viajar de mota pela Galiza não quer dizer necessariamente fazer muitos quilómetros. Mas quer dizer com certeza muitas horas de condução. Repleta de pequenas estradas de ritmo menor, e condução mais técnica, é obrigatório dela não sair sem percorrer tantas quanto conseguirmos. A beleza da Galiza está nos lugares de mais difícil acesso, que recompensam quem os ousa visitar com as suas maravilhas naturais. Por lá a rede de estradas é tão grande que conseguimos visualizar o ditado popular: ”todos os caminhos vão dar a Roma”. Hoje em dia, nós queremos ir a Roma pelo mais belo caminho e por isso seguimos atentamente o nosso plano no Garmin.



Santuário Virxe da Barca, Muxia
Numa manhã soalheira mas particularmente ventosa, o preço a pagar por uma dia de sol na Galiza dizem os locais, avançamos pela Costa da Morte para conhecer mais um cantinho à beira mar: o Santuario Virxe da Barca, em Muxia.
O vento sopra com determinação e, enquanto lutamos para nos mantermos na correcta trajectória, admiramos as torres do santuário elogiando os engenheiros na época: são sem dúvida bem resistentes à força das tempestades do Atlântico. Chegada a hora de parar para ver o interior, o João tenta escolher uma fachada resguardada do vento para estacionar, enquanto eu o observo já ao longe. Não tirei o capacete. Estavam um frio e vento danados! A viseira do meu Schuberth C5 já está com uma névoa estranha. É a maresia que o vento traz consigo, e nos faz limpar constantemente para ver algo a partir dela.
Viajamos na K1600GT naturalmente carregada com bagagem. O peso do conjunto deve aproximar-se dos 350 kg, tendo em conta que o João mantém a tradição e a mota está em breve na reserva. Mas o seu peso colossal não parece ser suficiente perante a força do vento que sopra determinado a tombá-la. No descanso lateral, a K1600GT dança ligeiramente ao sabor das fortes rajadas, e o João corre velozmente para a dali tirar.
Estamos em plena Costa da Morte e, olhando em redor, a vista alcança falésias distantes com guardiões do Atlântico sempre presentes: os faróis do Cabo Vilan, Punta Nariga e Roncudo são alguns deles. Para lá seguiremos, mesmo que o nosso Garmin nos diga que algures entre o Cabo Vilán e o Cemitério dos Ingleses existe uma estrada não pavimentada.


A testar os limites na Costa da Morte entre o Cabo Vilan e Cemitério dos Ingleses
De K1600GT, pneus de estrada e total desconhecimento sobre a rota em questão, avançamos ambos convictos de que só no local conseguiremos concluir se se trata de um estradão simples, sem grandes variações de inclinação, ou se a qualquer momento a Costa da Morte nos poderá mostrar o porquê de seu nome. Rimos ambos dentro do capacete enquanto eu relembro o João da sua famosa frase que muitas vezes nos levou a aventuras enduro com uma mota de touring: ”é só passar este bocadinho, não vale a pena voltar para trás”. Aquele bocadinho geralmente leva umas horas a fazer, com ele a manusear uma mota grande e eu a caminhar.
Tenho de reconhecer que, quando se sobrevive a mais uma aventura assim, num percurso mais complicado, sentir que vivemos os três (eu, ele e a mota) sem nenhum arranhão nos deixa as histórias que lembraremos por toda a vida. Afinal, nós não ponderamos fazer percursos fora de estrada se a localização não nos parecer sugestiva. E, por ali, o mapa mostra-nos que aquele é o percurso quase em cima do mar! Mais panorâmico não haverá com certeza.
”O João diz que isto é uma auto estrada”
”O João diz que isto é uma auto estrada” era a mensagem que se lia no ecrã do nosso Garmin. Personalizada por mim para alertar o condutor de que a partir dali era suposto não avançar sem ver o que o horizonte lhe reservava. As poucas imagens do Google Street View fizeram o João descrever aquele estradão à beira mar como uma auto estrada. Eu fico apenas mais preocupada com as inclinações daquelas falésias, e eventuais valas que as chuvas abundantes possam escavar nessas ocasiões. Tendo em conta que estamos na Costa da Morte, e a caminho do cemitério dos Ingleses, ninguém consegue desligar do peso da nomenclatura com falésias ali ao lado.

É mesmo uma auto estrada e, a única coisa que pode tornar este percurso mais complicado é mesmo o Atlântico. Num dia de fortes tempestades e agitação marítima não será o melhor lugar para percorrer de mota. Num dia soalheiro como aquele que encontrámos num mês de Fevereiro, está perfeito mesmo para uma mota de touring.



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Faro de Punta Nariga
Eu sei! É apenas mais um farol numa rota sem saída que termina à beira mar. E depois? Às vezes, mais do que o destino o que importa é o caminho. E nos faróis da Galiza é mesmo essa a nossa conclusão. Faz parte do nosso top de melhores faróis da região e recomendamos que não deixem de visitar o farol de Punta Nariga.
Este em particular, com uma construção em espécie de balcão sobre o mar agitado a nossos pés. Quase como a proa de um grande navio pronto para avançar mar adentro. Dali, mais do que os diferentes tons de azul com que o mar brinda os nossos olhos, avistam-se as falésias em redor numa zona costeira agitada e acidentada. Lá no fundo, os pescadores apanham percebes, um dos mariscos mais apreciados da costa galega. Conseguimos entender o porquê do preço alto…


Faro Roncudo
Sabem qual a minha coisa preferida de viajar no Inverno com os dias frios e soalheiros? Escolher um local mágico para terminar o dia à espera de mais um pôr-do-sol fabuloso.
Após a aldeia piscatória de Porto de Corme, iniciamos um percurso costeiro sem saída que termina em mais um das dezenas de faróis da Galiza: Farol Roncudo. A luz dourada do final do dia ilumina agora as paisagens, enquanto o vento e o frio que se faz sentir fora do nosso fato se revela também nas águas agitadas do mar. Há carneirinhos no oceano! Aqueles curtos quilómetros fazem-nos relembrar as paisagens costeiras da Noruega, igualmente recordadas pelo mar.
Estacionamos a K1600GT escolhendo uma zona protegida pela encosta. Abrimos ligeiramente a viseira e sentimos a maresia no rosto. Aguardamos pacientemente que o sol se ponha no horizonte sabendo que ainda nos restam uns quilómetros até ao alojamento do dia. Um dia de viagem de mota pela Galiza termina de forma perfeita se for a assistir ao pôr-do-sol. Mesmo que as temperaturas de Inverno estejam já a aproximar-se dos zero graus. O frio também traz consigo a beleza de uma luz especial.



🛏️Onde dormir em Fontequeiroso
- Náutico de Razo (a nossa opção)
- Casa da Vasca
Dia 4 –Praia de Razo – Santo Andrés de Teixido| 170 km
Éramos os únicos hóspedes no Náutico de Razo. No dia anterior chegámos já a noite tinha caído e a escuridão daquela enseada não nos deixou vislumbrar o mar ali ao lado. Ouvíamos o rebentar das ondas agitadíssimas, o vento soprar e sentíamos a maresia sempre que abríamos a viseira. Tudo isso na escuridão. Sabia que o Náutico de Razo tinha um parque privado nas traseiras daquele hotel mesmo à beira mar, fiquei tranquila com a mota a dormir num lugar onde o vento não a pudesse tombar.
Naquela manhã de Inverno, o sol voltou a brilhar para nos encantar mal abrimos a cortina do nosso quarto. O mar a nossos pés, e a Praia de Razo em todo o seu esplendor. Entrámos na ampla sala de fachadas de vidro para o pequeno almoço. E já nos esperava uma mesa cheia de comida acabada de preparar por um simpático senhor que podia ser nosso avó. Sempre muito preocupado se tínhamos comida suficiente e a recomendar que levássemos algo caso nos desse a fome mais tarde. Os galegos são fantásticos.
Corunha é a imperdível cidade numa viagem de mota pela Galiza
Chegámos por fim à grande cidade da Galiza: a bela Corunha. Sabem que não somos muito de entrar em roteiros moto turísticos por grandes cidades. Mas há algumas que são incontornáveis. Não poderíamos passar a Corunha sem conhecer a grande Torre Romana de Hércules e espreitar, mesmo que em duas rodas, o seu centro histórico.

Aproveitámos também a ida à cidade para conhecer, por fim, um dos nossos seguidores com quem falamos há anos atrás do pequeno ecrã. E guiados por ele, e porque ninguém melhor do que os locais conhece os cantos de sua terra, além de uma tarde muito agradável de conversa tivemos uma refeição maravilhosa de Arroz de Berberejos e Zamburinas no restaurante Comarea Marina.

Faro de Punta Candieira
João, sabes que este é o ”Stelvio dos Faros?”. Dizia eu dentro do capacete. Ainda nem o mar estava a ver e já estava a adivinhar a pronunciada descida que as imagens online me apresentaram do acesso ao Farol de Punta Candieira. O Stelvio dos Faros?! Troçava o João de mim, já a entender perfeitamente que, aquele seria mais um percurso que eu escolhi incluir no track mas que, quando lá estou, me pergunto mentalmente: porque é que eu tive esta ideia?! Afinal, eu tenho vertigens.
Quando na fase de planeamento vejo algo mais desafiante, escolho sempre decidir no local se as vertigens me vão impedir de o fazer ou não. Até porque há dias em que não me afectam tanto e, há lugares, que mesmo que sejam danados eu não posso permitir-me não os ir conhecer. Até hoje, posso já ter feitos muitos acessos de cabeça meio tonta lá na pendura, com um friozinho na barriga e suores frios, a resmungar com o João ‘‘não páaaares na berma”, mas nunca deixei nenhum local de acesso mais vertiginoso por conhecer. E o Farol de Punta Candieira foi um deles. E devo referir, que em muitos lugares assim, existem sempre alguns minutos de argumentação com o João, a tentar definir a minha noção de berma e a noção dele. Posso garantir que têm metros de diferença!
Do alto daquela falésia, a pequena e estreita estrada de acesso ao farol de Punta Candieira é feita de curvas e contra curvas que vencem a inclinação em pouca distância. No o final, está o farol, outro guardião do Atlântico, cujo acesso é um dos mais espectaculares e audazes da costa galega. Faz parte do nosso Top 6 dos melhores faróis numa viagem de mota pela Galiza e merece cada batimento cardíaco acelerado para o descer.




Santo Andrés de Teixido
Assim que entrámos a pé na pequena aldeia Santo Andrés de Teixido, sentimo-nos de imediato numa Fajã da Ilha de São Jorge, nos Açores. O cheiro a mar, a arquitectura, as plantações em redor, as escarpadas falésias que terminam no azul escuro do oceano, a igreja construída com pedras escuras e pintada de branco.


🛏️Onde dormir em Santo Andrés de Teixido
- Casa Rural San Andrés de Teixedo (a nossa opção)
- Hotel A Miranda (arredores)
Dia 5 – Santo André de Teixido – Viveiro| 250 km
Quanto mais a norte avançamos pela costa galega, mais maravilhados ficamos. A Galiza recebe-nos novamente com um dia soalheiro a iluminar todos os tons de azul e verde das paisagens. O seu aspecto mais indomável, as dramáticas escarpas à beira mar e o vento forte que sopra do mar lembra-nos mesmo o Wild Atlantic Way, na mágica Irlanda. Vir à Galiza é sem dúvida ver uma pedacinho da ilha irlandesa na Ibéria.
Garita de Herbeira
A Costa Ártraba caracteriza-se pelo relevo de alturas consideráveis. Montanhas que terminam sempre com o mar a vista e de forma abrupta num precipício qualquer. Pelos seus planaltos, o verde vigoroso lembra que por ali a chuva é frequente. E por isso os animais pastam pelos campos com muito alimento, beleza e tranquilidade.
Não é comum que a montanha mais alta de uma determinada serra faça parte de um sistema de falésias costeiras. Mas a Garita de Herbeira, dos seus 615 metros de altitude, mostra que o pico mais alto na Costa Ártraba, e da Serra da Capelada, o pode fazer com todo o esplendor. É uma das falésias mais altas da Europa Continental e um dos lugares mais belos da Galiza para uma viagem de mota. A pequena estrada que a atravessa é desenhada com uma geometria sugestiva, um piso perfeito, e uma inclinação que nos faz sentir que caminhamos sobre rodas para tocar as nuvens no céu.
O vento forte que se faz sentir leva-nos a caminhar com dificuldade para chegar ao ponto de vigia e pequeno abrigo. Fechamos o capacete para conseguir respirar melhor, tamanha é a força do vento que vem de norte. A K1600GT fica estacionada num ponto mais abaixo, protegida das rajadas fortes do ponto mais alto e nós, caminhamos uns minutos para a vertiginosa, bela e caótica falésia onde estacionar é obrigatório. Ali o Atlântico fustiga com força a costa verde esmeralda da Galiza, e o aroma do mar sente-se mesmo a tamanha altitude.



Farol do Cabo Ortegal e Estaca de Bares
Localizado no município de Cariño, deste cabo até à fronteira portuguesa, estende-se a costa mais recortada do litoral espanhol. E nós, neste ponto, já tivemos dias de poucos quilómetros, mas muitas horas a testemunhar o máximo de cantinhos que dela conseguimos encontrar. É um dos pontos mais setentrionais da Península Ibérica, superado apenas pelo seu vizinho cabo da Estaca de Bares.
Estaca de Bares tem uma localização bonita, mas é excepcionalidade do acesso ao Cabo Ortegal que nos faz elegê-lo como um dos melhores da Galiza. Aquela descida quase em linha recta mas em modo abrupto rumo a um oceano de forte personalidade, aviva-nos as emoções dentro do capacete. Ali o Mar Cantábrico separa-se do Oceano Atlântico e parece ser escolhido um panorâmico local para o fazer.
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Existem 3 zonas da nossa vizinha Espanha onde a gastronomia nunca nos desiludiu: Andaluzia, País Basco e, agora a Galiza. Diria que em qualquer pequeno restaurante numa remota aldeia em qualquer cantinho da província se come bem. E, para dois portugueses, a boa comida é muito importante. Diria que, a continuar muitos dias pela região, a nossa viagem de mota pela Galiza seria das únicas que se distinguiria por termos ganhado peso!
🛏️Onde dormir em Viveiro
- Pazo da Trave (a nossa opção)
- As Viñas
Final do roteiro de viagem de mota pela Galiza
O nosso roteiro de viagem de mota pela Galiza centrou-se apenas na região costeira no decorrer destes 5 dias de viagem. Ao quinto dia, e já nos limites da fronteira com as Astúrias, chegara a hora do regresso a casa. No nosso mapa abaixo partilhado, em Viveiro terminamos o nosso track. Pois a partir desse ponto, o regresso a casa foi pela rota mais rápida bem a tempo de escapar à tempestade de neve que caiu nas montanhas no dia seguinte. A K1600GT é tal e qual a RT: quando precisas de ir jantar a casa mesmo estando a centenas de quilómetros, sabes que o caminho não vai ser penoso e ela te acompanha sem hesitar.
Se dispões de mais dias para viajar pelo Norte de Espanha, ou pretendes um regresso a casa fora das auto estradas, recomendo que consultem o nosso roteiro pelo Vale do Silêncio e Ponferrada. E se ainda assim as Astúrias e a Cantábria tiverem um espacinho, por este blogue muitas são as rotas pelo Norte de Espanha que podem ser compatibilizadas com este roteiro. Consultem aqui e muito boas curvas.

Seguro de viagem
Sempre foi nosso hábito fazer um seguro de viagem quando cruzamos fronteiras, mesmo para um pequeno fim de semana. Apesar da assistência em viagem da nossa mota, é importante ter consciência que um seguro de viagem é muito mais completo, abrange muito mais circunstâncias e conta com capitais seguros infinitamente superiores em caso de necessidade. Já para não falar que, nas viagens com pendura, a assistência do seguro da mota é praticamente inexistente. Para esclarecer melhor esta questão consulte aqui o nosso artigo já publicado.
Para os dias deste roteiro, existem planos a por pessoa a partir de 20 Eur. Pelo valor simbólico não vale a pena arriscar a cruzar fronteiras sem uma salvaguarda em caso de problemas. Por seres nosso leitor, ao seguires este link ainda estarás a ajudar o blogue a continuar o seu projecto e receberás 5% de desconto na Iati no valor total da apólice e 5% de desconto na Heymondo. Simula os valores para as datas da tua viagem em ambas e escolhe a melhor para ti (é só clicar em cima de cada link laranja e verde respectivamente)
Mapa detalhado do roteiro de viagem de mota pela Galiza
Para consultar o mapa em detalhe, clique sobre ele ou utilize o canto superior direito para abrir directamente na página do Google Maps. Poderá fazer o zoom necessário para ver a rota em pormenor ou exportar para o GPS como preferir. Clicando no canto superior esquerdo, é também possível ler a legenda do mapa em detalhe. Pretende utilizar este mapa no seu aparelho de navegação e não sabe como o fazer? Consulte aqui o nosso artigo já publicado.
- Total de quilómetros: 1000 km + a distância ida e volta a vossa casa
- Dias de roteiro: 6 dias e possível continuar o regresso via: Vale del Silêncio, Ponferrada


