Roteiro de 10 dias de viagem de mota pela Albânia (com passagem na Macedónia do Norte)

Viagem de mota pela Albânia

Porque é que decidimos que a nossa próxima aventura seria uma viagem de mota pela Albânia? Porque este era um país que ainda não conhecíamos e, na data da nossa viagem, a Albânia, e outras zonas dos Balcãs, eram uns dos poucos destinos onde em ano de pandemia as restrições associadas eram poucas, ou inexistentes.

A questão da segurança pela Albânia sem dúvida que nos fez ponderar o destino, mas quanto mais informação recolhíamos sobre o país, mais ficávamos convencidos de que valeria a pena visitá-lo. E assim que a Albânia se tornou na nossa próxima aventura, numa viagem planeada com menos de duas semanas de antecedência.

Hoje, depois de a percorrer de norte a sul, só podemos recomendar que ousem explorar o país em duas rodas, e conhecer tudo o que de belo ele tem para nos revelar. O país é um diamante bruto que inicia agora o processo de lapidação e uma viagem de mota pela Albânia é a oportunidade de o conhecer da melhor maneira.

Por lá percorremos estradas entre o terrível e o perfeito, mas em todas elas encontrámos algo em comum: todas, sem excepção, nos levaram a conhecer as entranhas de um país de imensa riqueza natural, histórica e gastronómica. Paisagens e lugares de sonho que jamais ali imaginaríamos. Ora entre os picos imensos dos Alpes Albaneses ora de olho no azul reluzente do Mar Adriático.

Viagem de mota pela Albânia
Viagem de mota pela Albânia e os Alpes Albaneses
As montanhas no Valbona National Park
Lugares únicos no Valbona National Park
Viagem de mota pela Albânia
Albânia

Sobre a Albânia

A Albânia é um pequeno país dos Balcãs, situado no sudeste da Europa e banhado pelo Mar Adriático. Faz fronteira a norte com Montenegro, a nordeste com o Kosovo e a sul com a Macedónia do Norte e a Grécia. Durres, Vlore, Sarande, Shkoder e Tirana são das suas principais grandes cidades, sendo a última a capital do país. A religião dominante é o Islamismo e a seguinte o Cristianismo.

Foi um país que fez parte do Império do Otomano por mais de 400 anos, e uma nação comunista até a meados dos anos 90. Está entre os países menos desenvolvidos da Europa, e não integra a União Europeia. Com fortes ligações à União Soviética e à China no século passado, o país é um dos mais pobres do continente e apenas agora começa a renascer para o crescimento. O turismo no país é a última grande aposta e foi isso que lá fomos fazer. Turismo! Numa viagem de mota pela Albânia de norte a sul, tendo a oportunidade de conhecer alguns dos seus locais mais inexplorados.

Viagem de mota pela Albânia
Viagem de mota pela Albânia no seu interior remoto
Viagem de mota pela Albânia
Valbona National Park
Viagem de mota pela Albânia
Viagem de mota pela Albânia

Albânia, um dos países mais pobres da Europa

Quando pensamos numa viagem de mota pela Albânia é inevitável associar a um país do terceiro mundo. Pelo menos no que aos standards europeus diz respeito. Mas por lá encontrámos algo que nos surpreendeu pela positiva, e não coincide com um país de terceiro mundo: a limpeza exemplar de restaurantes, serviços e alojamentos.

Se pela Roménia já tínhamos tido essa experiência, a Albânia segue o padrão. Apesar de ainda haver muito a melhorar em relação ao lixo que se vê pelas bermas das estradas, ribeiros e afins, não houve um único lugar que tivéssemos questionado a limpeza durante a nossa viagem de mota de 10 dias pela Albânia.

É seguro dizer que, foi mais fácil para nós encontrar um lugar para dormir criteriosamente limpo pela Albânia, do que pela Itália, Espanha e França, os países supostamente desenvolvidos da Europa. Mesmo em plena pandemia, onde a higiene dos locais se tornou ainda mais importante, é seguro para nós dizer que os albaneses têm, nesse aspecto, algo a ensinar a alguns países desenvolvidos do continente europeu. O espaço pode ser pobre e pouco moderno, mas as roupas de cama cheiram a sabão azul e as superfícies a detergente desinfectante. Parabéns por isso Albânia! Portanto, se as condições de higiene são na vossa mente uma condicionante para visitar o país, recomendamos que descartem essa preocupação.

Para mais informações práticas sobre a Albânia consulte aqui o nosso artigo já publicado: Viajar pela Albânia é seguro? Essas e outras informações práticas sobre o país

Alpes Albaneses: Valbona National Park
Alpes Albaneses: Valbona National Park

Roteiro de 10 dias de viagem de mota pela Albânia

O embarque no ferry com destino a uma viagem de mota pela Albânia

Entrámos na  Albânia vindos do Porto de Bari, na vizinha Itália. Uma das possíveis rotas marítimas para cruzar o Adriático, e em poucas horas pisar o território dos Balcãs. A travessia de ferry é realizada maioritariamente durante a noite. Naquela que, hoje sabemos ser uma cabine privada imaculadamente limpa do ferry da companhia Ventouris Ferries.

Como no passado as nossas opções para a travessia do Adriático se revelara desastrosa, desta vez olhávamos apreensivos para o barco ancorado no porto, imaginando o que se poderia seguir.

Para mais informações sobre como e quanto custa chegar à Albânia consulte aqui o nosso artigo já publicado: Quanto custa e como chegar à Albânia de mota?

Viagem de mota pela Albânia e o primeiro vislumbre da máfia albanesa

Ainda Itália e na fila de entrada para o ferry com destino a Durres, na Albânia, começam a surgir os carros de matrícula albanesa que retornam ao país. Num trânsito lento, desorganizado e com o praguejar italiano em redor, aparecem ao nosso lado dois Mercedes novos, de vidros escuros, grandes e de barulhento motor.

O vidro do condutor está aberto e o braço do albanês está pousado sobre a porta. Um imenso anel de ouro gordo e reluzente, sobressai dos seus dedos gigantes. Com aquele flash aos episódios do cinema, encontrámos ali semelhanças nos ocupantes da viatura, e de imediato concluímos: só pode ser um capitão da máfia!

– João! É um mafioso, tu não enerves esse gajo por favor. Dizia eu. Afinal, com ele vinham outros. Todos de cara fechada e com aquele aspecto de serem pessoas a quem não devemos enervar. Estaria ali a nossa mente, e filmes a mais, a pregar-nos partidas? Parece que o descobriremos nos próximos dias, e na oportunidade de viajar pela Albânia.

A presença da máfia no país é bem conhecida e naquele momento é com algum receio que começamos a pensar que estamos em breve para entrar no país deles. Disparam os nossos níveis de adrenalina e estamos ali a lutar com a nossa mente para recordar: uma coisa é sentirmo-nos inseguros, outra coisa é estarmos realmente inseguros.

Dia 1  –  Durres – Berat |  120 km ( 2 horas de condução em estradas secundárias)

Ainda não eram 7 horas da manhã, a hora prevista de chegada, e da janela da nossa já avistávamos o Porto de Durres. Sempre que optamos por transportes de ferry durante uma viagem de mota, planeamos o nosso roteiro para que seja feito no horário noturno. É uma das melhores formas de gerir os custos e o tempo.

A entrada no país é feita com o rigoroso controlo de documentação, nosso e da viatura. Um processo rápido e muito normal desde sempre pelas fronteiras dos Balcãs. Existem máquinas de controlo raio-x na zona, e áreas para onde a polícia nos pode desviar para mais questões. Passámos sem qualquer problema.

Apesar de ser uma zona portuária, a cidade de Durres não se apresenta tão mal como esperávamos. Um forte investimento turístico nas praias da região revela um país a ser reconstruído. Mas não nos deixemos enganar pela suposta evolução. Afinal, entrámos na auto-estrada e já encontrámos um rebanho que também escolheu o caminho mais rápido.

É fim de semana. As ruas estão repletas e o trânsito mais intenso. O João conclui rapidamente que o estilo de condução albanês não é dos mais seguros para quem vai em duas rodas. Entrámos em Marrocos? Assim é a nossa primeira impressão ao pisar solo albanês.

Do Fortress of Bashtovë a Berat

Depois de uma visita ao Fortress of Bashtovë, Berat é a paragem seguinte que sugerimos. A cidade que é uma das pérolas turísticas do país e Património Mundial da Unesco. É a cidade das mil janelas, assim nos antecipa a vista panorâmica para o casario aninhado na montanha.

Viagem de mota pela Albânia Fortress of Bashtovë
Viagem de mota pela Albânia A entrada do Fortress of Bashtovë
Fortress of Bashtovë
Fortress of Bashtovë

Sugerimos a estadia no Hotel Rezidenca Desaret, localizado no centro histórico da cidade, com garagem privada para a mota e com condições ideais para chegar a meio do dia, despir os fatos de motociclista e seguir em roupa casual para explorar a cidade antiga. Com os seus mil e um degraus e subidas.

Locais a visitar

  • Fortress of Bashtovë
  • Castelo de Berat
  • Igreja de Santíssima Trindade
  • Bairro Mangalem
  • Ruas de Gorica

🛏️ Alojamento em Berat 

Dia 2  –  Berat – Dhermi |  180 km ( 3 horas de condução em estradas secundárias)

Dia de rumar ao litoral albanês para a visita a mosteiros ortodoxos, ruínas romanas e fortes medievais. A costa albanesa é repleta de vestígios de ocupação de muitos povos no passado. Todas essas histórias fascinam-nos e incluímos sempre muitas visitas a monumentos nos nossos roteiros.

Ruínas Romanas de Apolónia

É o segundo dia no país e, depois de muitas questões sobre a eventual segurança da Albânia, começamos agora a relaxar com os sorrisos genuínos das pessoas com quem nos cruzamos. Paramos para visitar as ruínas romanas de Apolónia instaladas em pleno estuário.

O parque para visitantes é amplo, mas as sombras escasseiam. Ainda não são 9 horas da manhã e o calor já se faz sentir. Dirijo-me ao albanês que guarda a entrada. Sentado numa cadeira branca de plástico, aproveitando a escassa sombra que a sinalética de local turístico lhe oferece. Ele não percebe inglês e eu não percebo albanês. Ele acena irritado para estacionar a mota ao lado dele, pois fica bem guardada. Mas entretanto o João já está uns bons metros abaixo a estacioná-la debaixo de uma oliveira. Procurando aquela sombrinha rara.

O albanês fica impaciente porque eu não segui a sua recomendação. E eu quero tudo menos enervar um albanês. Como fazer-lhe entender que estou muito grata mas queria a mota à sombrinha? Digo sol, sun, shadow, sombra, sombrero e sei lá mais quantas palavras que não sei se existem. O João ri porque enquanto se aninha tipo pássaro numa oliveira com muitas ramagens baixas, me está a ouvir à distância com os comunicadores. Até que me lembro de usar a linguagem gestual e aponto para o sol! O albanês sorri de imediato e acalma, compreendendo o meu problema. Portugal, Cristiano Ronaldo! E aponta para a entrada do monumento. Ufa! Não queria mesmo nada enervar um albanês.

ruínas romanas de Apolónia
Estacionamento à sombra nas ruínas romanas de Apolónia
ruínas romanas de Apolónia
Viagem de mota pela Albânia: Ruínas romanas de Apolónia
ruínas romanas de Apolónia
Mosteiro de St Mary no complexo arqueológico de Apolónia

Parque Natural de Vjose- Narte

Com os ares do Adriático a fazerem-se sentir, o dia amanhece soalheiro. É no Parque Natural de Vjose- Narte que a nova etapa começa. Desde a entrada no norte do país, as paisagens são feitas de ambientes de pouco relevo, muito típicos das zonas de estuário. Percorremos toda a extensa área natural, e paisagem protegida da lagoa de Narta, onde o rio Vjose modela a paisagem. Cheira a mar mas não se vê o mar.

St Mary's Monastery
St Mary’s Monastery

Rumamos à península de  Zvernec para conhecer o Mosteiro Ortodoxo de St Mary. Atravessamos pântanos de água doce, pequenos bosques, ilhas e praias arenosas. Em redor, estão os campos cultivados revestidos de verde por imensas extensões. A agricultura e pesca são actividades dominantes, e por muitos cantos estão as bancas de venda de fruta na beira das estradas. A tentação de parar e carregar uma melancia é grande. Não seria a primeira vez que o faríamos. Mas calma! Estamos ainda no início do dia.

Viagem de mota pela Albânia
A caminho de St Mary’s Monastery
Viagem de mota pela Albânia
Viagem de mota pela Albânia em Zvernec

– João o que faz esta gente toda parada nas vias rápidas? Perguntava eu. Parece que por ali é normal ir para uma via rápida esperar por alguém que lhes dê uma boleia. Vimos homens, mulheres e crianças à espera do seu transporte, ali expostos nas bermas à louca condução albanesa. Sim, porque o código da estrada, e sinalização que por lá também existe, são meramente indicativas. Os albaneses conduzem naquele a que chamamos estilo livre. Nos casos mais agudos o João diz ser o animal style! Continuam a aparecer os rebanhos de ovelhas na estrada, ou aquela cabritinha mais ousada que quis uma ervinha vigorosa na faixa central.

Llogara National Park

Esta seria a última zona do país que passaríamos sem ver imponentes montanhas. Nos curtos quilómetros que se seguem, encontramos de repente os picos nevados do Parque Nacional Llogara. Estamos em plena Riviera Albanesa e, agora do alto das montanhas, avistamos o reluzente Mar Jónico.

LLogara Pass
Melhores Estradas da Albânia: LLogara Pass
LLogara Pass
LLogara Pass
LLogara Pass
Entre curvas no LLogara Pass

LLogara Pass é o caminho de mil e uma curvas que atravessa a região. Mas se o pavimento recém colocado nos tenta a uma condução mais ousada, os animais pela estrada, os condutores albaneses em manobras não recomendáveis e excesso de velocidade, relembram-nos que por ali temos de conduzir com atenção quadriplicada. Temos é como quem diz. Eu vou lá atrás sossegadinha a aproveitar a paisagem, bem agarradinha com uma mão à mota, não vá existir aquela travagem repentina.

As praias de sonho da Riviera Albanesa

Onde acaba o mar e começa o céu? As curvas do Llogara Pass são sempre com uma vista do mar, e das praias cristalinas que aguardam por nós lá em baixo. Palasa, Livadhi, Dhermi, Gjipse são algumas das mais espectaculares da Riviera Albanesa. Visitamos todas, mas escolhemos uma para fazer praia e pernoitar.

É em Dhermi que damos o nosso primeiro mergulho da viagem no Mar Jónico. A combinação alojamento com parque privado, acesso pavimentado e caminhada de 2 minutos para a praia e restaurantes é ali perfeita. Ainda não são três da tarde e já estamos de pés na areia.

LLogara Pass
Dhermi. Vista panorâmica do LLogara Pass
As praias de sonho da Riviera Albanesa
Dhermi, Riviera Albanesa
As praias de sonho da Riviera Albanesa
As praias de sonho da Riviera Albanesa

Restaurante Luciano, Dhermi

Somos um casal de portugueses com uma imensa vontade de viajar mas, em muitos países visitados é para nós difícil encontrar uma refeição que satisfaça o nosso palato exigente. Não gostamos de experiências gastronómicas estranhas aos nossos hábitos e tudo o que fuja do que nos é tradicional é encarado de forma suspeita. Um dos maiores sacrifícios que fazemos em muitas viagens é estarmos longe da comida portuguesa.

Ora descansem! Mal pisámos solo albanês, concluímos que a cozinha tradicional do país é um mimo. Porque qualquer que seja a iguaria saberá deliciosamente a um tempero mediterrânico. O restaurante Luciano, em Dhermi, é um perfeito exemplo e um local que justifica por si só uma ida ao país. Já disse ao João que no dia em que voltarmos para ir à Grécia, fazemos um desvio à Albânia só para ir ao Luciano. Entre mariscos e pizzas no forno a lenha, sobremesas caseiras e entradas apetitosas, o jantar abaixo custou 15 Eur com vista mar gratuita.

Locais a visitar

  • St Mary’s Monastery
  • Ruínas Romanas de Apolónia
  • Orthodox Monastery Nativity of the Virgin Ardenica
  • Llogara Pass

Restaurante em Dhermi

🛏️ Alojamento em Dhermi

Dia 3  –  Dhermi – Ksamil | 100 km (3 horas de condução em estradas secundárias)

A noite foi passada na praia de Dhermi. Quando o dia amanheceu, ainda ponderámos por ali ficar mais um dia e desfrutar daquelas fabulosas águas do Mar Jónico.

Da janela do nosso quarto no Hotel Villa Petro, além da nossa mota estacionada lá em baixo, avistamos a ilha grega de Corfu, num horizonte de céu nublado. Decidimos seguir viagem, aproveitando o dia menos soalheiro para visitar os monumentos da antiguidade que abundam na costa albanesa.

Viagem de mota pela Albânia
Estrada SH 8 Viagem de mota pela Albânia

Questionando previsões do GPS

– O quê? 80 quilómetros e duas horas de viagem? João, tens a certeza que o nosso GPS está bem da cabecinha? Lá estava eu a desconfiar da tecnologia. A próxima paragem seria o Parque Nacional de Brutrint, uma antiga cidade grega, cujas ruínas são Património Mundial da UNESCO. O percurso, feito sempre à beira mar, com entrada na península mais famosa da Riviera Albanesa: a região entre Ksamil e Butrint. Mas aquela previsão do tempo de chegada estava a parecer-me estranha.

Himare, Lukova e Sarande foram algumas das cidades que se seguiram, onde praias com o mesmo nome exibem uma costa recortada por ilhéus, repleta de águas azul turquesa. E, se até então desconfiava das previsões do nosso Garmin, assim que iniciámos a nossa viagem pela estrada SH8 compreendi de imediato. Altamente povoada, loucamente curvilínea. Suspeito também, que o pequeno aparelho reconhece que está na Albânia, e inclui no seu cálculo o tempo perdido conduzindo com a prudência necessária ao estilo de condução albanês.

Viagem de mota pela Albânia
Butrint aos olhos do Garmin Zumo XT

SH8 uma das estradas mais povoadas da Albânia

O João, em modo ultrapassagem de tudo o que lhe aparece na frente (vacas, cabras, burros, ovelhas, carros, motas, coisas com rodas que não sabemos bem o que são, etc), tem em mente deixar para trás tudo o que são obstáculos que poderão a qualquer momento fazer uma manobra estranha. Eu, lá atrás, sugiro: – Porque não deixas pelo menos um carro à nossa frente? Assim de repente sinto-me mais segura se tiver um escudo protector!

Na azáfama daquele movimento caótico, onde as regras de trânsito não existem, ver ultrapassagens em curvas sem visibilidade é um apelo à nossa fé. Pondero só dizer à minha mãe que estou na Albânia quando dela sair. Se bem que as rezas da minha avó seriam bem vindas.

Viagem de mota pela Albânia
Animais pela estrada
Viagem de mota pela Albânia
Aldeias pela SH8

Parque Nacional de Brutrint

Precisamente duas horas depois estacionámos a nossa mota na entrada das ruínas de Butrint. Estamos no fim da estrada. Para continuar para sul a travessia terá de ser feita pelo ferry do lago Butrint.

Poderei chamar ferry a uma espécie de plataforma de madeira que é puxada por cordas cada vez que um veículo necessita de cruzar as margens? Ri de mim mesma quando há uns dias atrás procurei na internet os horários das passagens.

Não passámos pelo barco. E o único motivo foi a sinalética de restaurante para comer uns mexilhões que vimos lá atrás. A nossa gula supera a nossa vontade de testar a capacidade de carga da barcaça improvisada. Deixaríamos a península depois de uma saborosa refeição, fazendo meia dúzia de quilómetros pelo mesmo caminho.

ruínas de Butrint
Visita às ruínas de Butrint
ruínas de Butrint
Ruínas de Butrint
Viagem de mota pela Albânia
Ferry tradicional albanês!
Viagem de mota pela Albânia
Parque das Ruínas de Butrint

Restaurante The Mussel House

– Bem vindos! De onde são? Polónia? Perguntavam-nos os empregados de mesa do restaurante The Mussel House. Se há coisa que me enerva é que nos confundam com polacos. Nada contra os polacos, mas não se está mesmo a ver que aquele P é da grande nação Portugal?

– São de perto de Vila Nova de Famalicão? Como é que surgiu agora Vila Nova de Famalicão na conversa daquele, jovem e simpático, albanês? Pensava eu. Afinal, era um viciado em futebol e o nome dos clubes fazia-o saber a geografia do mundo como ninguém.

– Estão há muito tempo no país? Para onde vão? Questionava curioso. Não vão para Tirana de mota pois não? Ali, outra vez aquela conversa sobre segurança, agora que já estávamos a começar a relaxar ele fez-me lembrar dos mafiosos.

– Oh João tu ouviste o que ele disse? Mas nós não vamos a Tirana, porque nós nem gostamos de visitar capitais de mota! Passados uns momentos de conversa com dois empregados distintos, a informação era outra. Como se a nossa pergunta sobre a segurança em Tirana nem fizesse sentido.

Viajar de mota pela Albânia pela primeira vez, é ter que pensar a cada dia, se devemos avançar ou não. Depois, racionalizando a coisa, recordamos que devemos seguir viagem com todo o bom senso que deve existir em qualquer lugar do mundo. Afinal, é o terceiro dia no país e não há nenhum motivo que nos faça querer sair dele, sem o percorrer de norte a sul.

Restaurante The Mussel House
Restaurante The Mussel House
Restaurante The Mussel House
The Mussel House
Gastronomia pela Albânia
Mexilhões (Mussels) na baía de Butrint. Albânia

Locais a visitar

  • Ruínas de Butrint
  • Praias de Ksamil
  • The Mussel House

🛏️ Alojamento em Ksamil

Dia 4  – Ksamil – Permet | 200 km ( 4 horas de condução em estradas secundárias)

Este é o dia de deixar o Adriático para trás e entrar no interior montanhoso do país. Gjirokaster é a cidade fortificada eleita para a próxima paragem. Mas, pelo caminho, ainda colocamos a nossa RT em maus caminhos para visitar o Blue Eye.

As águas cristalinas do Blue Eye 

O Blue Eye é a nascente de água azul cristalina que pode chegar aos 50 metros de profundidade e continuar a ser um jogo de luz maravilhoso. Mais uma vez, o nosso GPS diz-nos que em poucos quilómetros entraremos numa estrada não pavimentada. Assumo que ele está a exagerar, e que aquilo é só um pequeno acesso para visitar o Blue Eye.

Seguiram-se dois quilómetros por entre a floresta, numa estrada sem pavimento que me testa os nervos a mim e a capacidade de conduzir a RT por maus caminhos do João. Quando cheguei por fim àquela mágica nascente, ainda tinha em mim aquele nervosismo de pensar: Eu vim e agora ainda tenho de ir.

Blue Eye
Acesso de 2km não pavimentado ao Blue Eye
Blue Eye
Blue Eye, Albânia
Blue Eye
As águas mágicas do Blue Eye

Gjirokaster

Do alto do Castelo de Gjirokastra, fica o vislumbre dos picos nevados das montanhas que se elevam do outro lado do vale do Lumi Drino. Com mais uma etapa rumo ao interior e à Albânia rural, atravessamos todas elas até ao distrito de Permet. A região albanesa que é conhecida pelas suas fontes termais, e inúmeras grutas, que se prolongam desde o Osumi Canyon até ao Langarica Canyon.

Ali, a estrada avança num traçado quase paralelo ao rio Vjose, que mais à frente encontra o Langarica, tido como o rio abençoado. Parece que as propriedades terapêuticas das suas águas são reconhecidas, e a afluência ao local dos populares é grande.

Viagem de mota pela Albânia
A caminho de Gjirokaster

Aquela dica para abastecer com boas margens de autonomia

Posso aqui aproveitar esta oportunidade para tentar passar uma mensagem para o futuro ao João? Pouco tempo depois de sairmos pela manhã de Gjirokastra, a última grande população que veremos por dias, olho para o visor da mota e vejo o triângulo amarelo. A RT entrou na reserva. Temos menos de 80 km de autonomia. E nós estamos a caminho do interior remoto da Albânia. Aquele onde povoações não abundam e os meios de transporte principais são os burros e cavalos. Veículos de tração animal que não dependem de combustível fóssil.

– Não te preocupes! Vamos numa estrada nacional. Diz ele com a confiança típica de quem nunca olhou para o mapa da Albânia.

Avançamos com aquela adrenalina adicional. A estrada SH75 prolonga-se por um pronunciado vale, ladeado por montanhas avassaladoras de altitude tão elevada que ver o céu se torna difícil. Um piso de qualidade, recém colocado, permite uma condução mais descontraída. Os albaneses que conduzem como loucos, não parecem andar por ali. Durante mais de duas horas, cruzamo-nos apenas com um carro de turistas suecos, e meia dúzia de pastores.

Estrada SH75, Albânia
Estrada SH75, Albânia
Ponte sobre o Vjose Estrada SH75, Albânia
Ponte sobre o Vjose Estrada SH75, Albânia

O vale do Rio Vjose e o distrito de Permet

As águas do rio Vjose tornam-se cada vez mais cristalinas com a proximidade a Permet. Estamos naqueles rios de calhaus pontiagudos típicos de torrentes. De margens de rochas esbranquiçadas que nesta época do ano, muitos meses depois do degelo, apresentam um caudal menos intenso. O azul turquesa sobressai do leito do rio onde vacas, ovelhas e cabras matam a sede. Ouvimos os chocalhos vigorosos muito próximos. São as vacas que estão agora no meio da estrada e o João dá por si a ultrapassá-las. Se há coisa que ele não gosta é de entrar dentro de uma manada, sempre temendo que a qualquer momento um animal decida que não gosta que ele esteja ali. – O pior é o cão pastor! Constato eu, temendo pelas minhas canelas enquanto ele corre a rosnar atrás de nós.

vale do Rio Vjose e o distrito de Permet
vale do Rio Vjose e o distrito de Permet
vale do Rio Vjose e o distrito de Permet
Distrito de Permet

A autonomia da RT prevê combustível para 8 quilómetros quando chegamos por fim à primeira bomba de gasolina que nos salta ao caminho. Não adiantava procurar outra no nosso GPS, para a esquerda temos montanhas imensas, para a direita temos montanhas imensas, a única opção seria voltar para trás ou rezar para encontrar alguma em tempo útil.

Abastecemos a mota, mas só dizemos depois que só temos euros ou multibanco para o meio de pagamento. Euros será! Porque uma máquina multibanco é algo que ali naquela zona ainda não se sabe o que é.

Viagem de mota pela Albânia. Bombas de gasolina
Viagem de mota pela Albânia. Bombas de gasolina em Permet

Distrito de Permet

Chegamos a Permet, e por ali encontramos uma povoação com alguma dimensão. Mas se até então os Mercedes topo de gama, de barulhentos motores e vidros escuros, abundavam pelo caminho, parece que por ali a actividade é fraca, e a sua presença pouco notada. Apenas um ou outro que gosta de um local mais remoto para os seus negócios.

Villa Permet é o alojamento eleito para a noite. Uma casa histórica albanesa, recém restaurada com um bom gosto fabuloso, mantendo os traços originais e oferecendo hospitalidade e simpatia a quem por lá chega. Deixamos por ali a bagagem e seguimos para visitar o Langarica Canyon e as suas fontes termais de águas azul turquesa.

vale do Rio Vjose e o distrito de Permet
Hotel Villa Permet
Hotel Villa Permet
Estacionamento n Hotel Villa Permet

Langarica Canyon

A pouca informação acerca da região, faz-nos duvidar acerca do acesso pavimentado. Mas olhando para o mapa, é fácil concluir que o relevo à beira rio não é acentuado, e um eventual estradão para aceder ao local poderá ser viável de realizar. Avançamos na incerteza, e no fim de uma dúzia de quilómetros sempre com pavimento, chegamos por fim a um dos locais mais famosos da Albânia rural: Linje, Benje e a Ponte Otomana de Kadiut. De um lado o desfiladeiro profundo, do outro, os picos nevados das montanhas que amanhã atravessaremos.

Nascente de águas termais no Langarica Canyon
Nascente de águas termais no Langarica Canyon
Nascente de águas termais no Langarica Canyon
Ponte Otomana de Kadiut

Locais a visitar

  • Blue Eye
  • Castelo de Gjirokastra
  • Linje e Benje
  • Ponte Otomana de Kadiut

🛏️ Alojamento em Permet

Dia 5 Permet  –  Ocrida 220 km ( 5 horas de condução em estradas secundárias)

– Hoje, como vamos a caminho da Macedónia, e passar a fronteira poderá ser demorado, vamos fazer só uns 200 km de etapa não achas? Dizia eu ao João, planeando a etapa seguinte. Longe de imaginar, que aqueles 200 km seriam dos mais duros que faríamos desde sempre.

Despedimo-nos da Villa Permet, prometendo voltar por mais tempo àquele fantástico alojamento. Fazemo-nos à estrada ainda não são 9 horas da manhã, saciados depois de um farto pequeno almoço tradicional albanês.

Seguiremos a SH75 pelo interior da Albânia, pelas montanhas que o rio Vjose atravessa, até que se despede de território albanês, e continua para o grego. Estamos a meia dúzia de quilómetros de terras gregas, mas ainda não será desta vez que as conheceremos. As formalidades de fronteira exigem em teste PCR para despiste do Covid, realizado nas 48h anteriores e isso, nesta região da Albânia requer tempo que não queremos gastar.

Vale do Vjose
Vale do Vjose

Cruzar fronteiras em tempo de pandemia. Entre a Macedónia, Grécia e Albânia

A propósito do vírus mais famoso do mundo, importa salientar que na Albânia não há covid, e as máscaras são proibidas. A vida decorre normalmente e, apesar de pelas zonas mais povoadas o lixo pelas ruas ser mais do que aquele que gostaríamos de ver, é surpreendente como assim que entramos em restaurantes, alojamentos, lojas e etc, a limpeza é surpreendente. Absolutamente melhor do que em muitos países da Europa dita evoluída.

Meandro do Vjose

-Esta estrada está do pior! Diz o João que faz uma espécie de gincana a conduzir a RT ora entre buracos, ora entre abatimentos no piso, ora entre coisas que não sabemos descrever. -Tem calma, isto anda em obras devem ser só uns quilómetros. Dizia eu lá atrás.

Vale do Vjose
Interior da Albânia em obras

Ganhamos altitude gradualmente e, entre curvas e contra curvas, chegamos por fim ao miradouro do Meandro do Vjose. Esquecendo de imediato o mau caminho para ali chegar, somos arrebatados pela avassaladora beleza daquele rio translúcido e daquelas montanhas gigantes de picos esbranquiçados. É a mágica Albânia.

Meandro do Vjose, Albânia
Meandro do Vjose, Albânia

É quase meio dia e 3 horas depois ainda só fizemos cerca de 80 km. As obras passaram mas a estrada não melhorou. Estamos num inóspito caminho, entre densas florestas de pinheiros estilo nórdico, bermas repletas de vegetação que nos revelam que por ali o movimento é praticamente inexistente.

– João? Achas que vai aqui aparecer um urso? Há ursos na Albânia? O que fazemos se virmos um urso? Perguntava eu, olhando em redor e lembrando-me de que aquela mata cerrada seria um habitat sugestivo para tal bicheza. Mantendo sempre aquela pressão adicional ao João, que não tem já preocupações suficientes ao tentar não enfiar a RT numa cratera que nos transporte directamente para a Austrália. Só lhe faltava agora ter de pensar se há ali ursos.

Restaurante Farma Sotira

Farma Sotira é a sinalética que nos aparece depois de muito tempo sem ver qualquer casario. Não podemos deixar passar aquela oportunidade sem parar para almoçar. Senão, estaremos sujeitos às sardinhas enlatadas que trazemos na bagagem.

Entramos naquele que é um agroturismo, parque de campismo e restaurante tradicional num só. Entre piscinas de trutas, pontes de madeira e muitas esplanadas cobertas encontramos ali um oásis albanês. Reparamos no imenso forno a lenha, na churrasqueira a fumegar e começamos a salivar só de imaginar o que ali estará a ser cozinhado. Queijo feta, batatas fritas caseiras, folhado de espinafres e borrego fazem parte do manjar servido.

Viagem de mota pela Albânia: Farma Sotira
Viagem de mota pela Albânia: Farma Sotira

Continuamos o caminho para a Macedónia, e para o lago Ohrid. Aguardam-nos mais cerca de 120 km de estrada no mesmo registo do anterior. Parece que aquele é o esquecido interior albanês. Atravessamos cidades imensas feitas de prédios da era soviética, com aquele estilo arquitectónico que lhes confere um ar carregado e sombrio. Chegamos por fim a Pogradec, nas margens albanesas do lago Ohrid.

Entramos na Macedónia com uma capa de nuvens cinzentas por cima do lago, mas sem qualquer dificuldade na passagem da fronteira. Portugal? Cristiano Ronaldo! Voltaremos à Albânia daqui a uns dias.

Chegada ao Lago Ohrid, Albânia
Chegada ao Lago Ohrid, Albânia

🛏️ Alojamento em Ocrida

Dia 6 Ocrida – Bitola 150 km ( 3 horas de condução em estradas secundárias)

Para mais informações sobre o nosso roteiro pela Macedónia do Norte consulte aqui o nosso artigo já publicado: 2 dias na Macedónia do Norte em torno do Lago Ohrid

Dia 7 Ocrida  – Kukes  220 km ( 4 horas de condução em estradas secundárias)

Voltar a cruzar a fronteira da Albânia

Apesar de em poucos quilómetros encontrarmos novamente a fronteira, a ansiedade de pensar se iremos ter problemas ou não já não existe. Afinal, já constatámos que por aqui a preocupação com o Covid é diminuta, e já aprendemos a dizer que estamos apenas em trânsito caso a coisa se atrapalhe.

Seguem-se as etapas normais de controlo de cartão de cidadão, seguro e documentos da mota. Nesta zona do país, esta é uma pequena fronteira onde apenas 2 polícias controlam a passagem em ambos os sentidos. Aguardamos a nossa vez, enquanto observamos as andorinhas que voam freneticamente entre os ninhos em redor do edifício, na sua azáfama de alimentar as crias. O tempo passa e continuamos à espera que nos devolvam os nossos documentos. Foi um senhor com idade já avançada que nos recebeu e parece que em dificuldades em registar os nossos cartões de cidadão no sistema informático, pediu ajuda ao colega mais jovem. Devolve-nos ao longe um aceno em jeito de desculpa, e em poucos momentos estamos prontos para ir.

É importante salientar de que para viajar pela Albânia e Macedónia é necessário garantir que o nosso seguro é válido. Para mais informações consulte aqui o nosso artigo já publicado: Informações sobre o pedido de extensão territorial do seguro para viagens de mota

De novo na Albânia

Estamos novamente por terras albanesas e o piso da estrada já o confirma. O João dá por si imediatamente a desviar a nossa mota de todos os buracos que vão surgindo.

Parece ser dia e hora de mercado. As pequenas aldeias atravessadas estão repletas de gente em torno de bancas de frutas, legumes, roupas e tudo o que são utilidades que se possam imaginar. Também algumas inutilidades, pois claro! A música toca nos rádios e a animação por ali é grande. Também a confusão para quem já tem preocupação suficiente em desviar-se dos enormes buracos que parecem multiplicar-se a cada quilómetro.

Monte Korab

Deixamos o vale do Drinn e rumamos a Sllove. Ali de imediato encontramos uma estrada que não esperávamos ser tão incrivelmente boa. Os picos nevados do majestoso Monte Korab já nos acompanham à distância e o ganho de altitude é gradualmente curvilíneo. Estamos num balcão panorâmico, ora entre enormes desfiladeiros rochosos, ora entre imensas colinas verdejantes.

O ambiente é alpino e a certeza de que chegámos por fim aos Alpes Albaneses. Ali, a montanha supera os 2700 metros de altitude e divide a Albânia, a Macedónia do Norte e o Kosovo. Encontramos um memorial de guerra, para não deixar esquecer que aquelas montanhas foram até há bem pouco tempo um campo de Batalha na recente, e dura, Guerra do Kosovo.

Estamos em Kukes, a maior cidade que rodeia a montanha, e que é uma das principais ligações entre países. A azáfama de camiões que passam as pontes sobre o Drinn assim o testemunham. Ali, o rio Drinn Negro encontra o rio Drinn. Cuja cor amanhã descobriremos num roteiro por toda a extensão do seu vale.

Monte Korab, Albânia
Monte Korab, Albânia
Memorial de Guerra. nas montanhas fronteira Albânia/Kosovo
Memorial de Guerra. nas montanhas fronteira Albânia/Kosovo
Memorial de Guerra. nas montanhas fronteira Albânia/Kosovo
Montanhas no Monte Korab

🛏️ Alojamento em Kukes

Dia 8 Kukes  –  Valbona 150 km ( 4 horas de condução em estradas secundárias)

Dia de avançar perdidos nos confins do interior norte da Albânia, acompanhando o vale do rio Drin por mais de 200 km de estradas estilo albanês. E para os menos atentos, o que são estradas do estilo albanês? São estradas que até podem ser recém pavimentadas, mas já caíram ou estão a cair. Intercaladas por etapas de antigo pavimento, onde buracos, crateras, gravilhas, lamas e todo o tipo de obstáculos nos saltam ao caminho.

O dia avança e a previsão de quilómetros e tempo de chegada ao destino dada pelo nosso GPS parece que não diminui! Este é o único caminho que temos de percorrer para nos levar às avassaladoras montanhas do Valbona National Park.

Estrada SH23 Kukes - Fierze
Estrada SH23 Kukes – Fierze
Estrada SH23 Kukes - Fierze
Estrada SH23

Máfia albanesa: realidade ou ficção?

Já vos falei da máfia albanesa certo? A etapa do dia foi feita maioritariamente entre montanhas despovoadas, longe em tempo e distância das cidades mais próximas. Para o almoço tivemos de recorrer novamente às sardinhas e atum enlatados, porque em nosso redor não houve absolutamente nada por quilómetros.

Como tal, foram horas de viagem que não vimos vivalma. Até que, num longínquo horizonte na montanha, começámos a avistar uma obra colossal de uma qualquer infraestrutura. Será um hotel?! Será uma fábrica?! Parece que são obras para uma fábrica de captação e distribuição de águas, concluímos quando por lá passámos. Até aqui tudo normal.

Estrada SH23 Kukes - Fierze
Albânia: Estrada SH23 Kukes – Fierze

Encontrámos a máfia outra vez

-Oh João tu já viste ali aqueles gajos? Assim como um flash à série ”Os Sopranos” reconheci ali um cenário equivalente ao avistar uma mesa com muitas pessoas sentadas em redor, ao lado de um contentor de estaleiro de obras. Não me pareceram ser engenheiros, porque aquela qualidade de estradas revela que eles ainda não chegaram à Albânia.

Em torno de duas pequenas mesas brancas de plástico, revestidas por uma toalha de padrão aos quadrados vermelha e branca, sentavam-se vários albaneses de roupa limpa, escura e cara fechada. A seu lado, uma bela e jovem mulher que nos olhava com curiosidade. Estacionados a poucos metros, estavam mais de uma dezena dos tais Mercedes novos, de vidros escuros e dos modelos mais luxuosos que poderemos imaginar. Aqueles só podem ser os capitães da máfia que controlam aquela obra!

Eu e o João rimos! Relembrando as noites que passámos a ver a série que retrata a vida da máfia italiana em Nova Iorque. Aqueles são primos com certeza! Capitães da máfia que nem reparam na nossa passagem, mas pessoas com quem evitamos socializar. Ficando na dúvida se estas conclusões são próximas à realidade ou apenas fruto da nossa fértil imaginação.

Fierze

Fierze foi a povoação a que chegámos no fim de mais um dia pelas estreitas e remotas estradas de alta montanha do país. Ali, a caminho de um dos locais mais turísticos da Albânia, encontrámos finalmente a sinalética: Valbona National Park. Por lá terminaríamos o dia.

A proximidade aos locais mais visitados, também é directamente relacionada com a qualidade dos acessos que se encontram. A partir dali, e pelos quilómetros que se seguiram, o João pôde por fim descansar (não muito) da exigente condução a que a etapa do dia o obrigou.

Viagem de mota pela Albânia: Chegada a Fierze Estrada SH23
Viagem de mota pela Albânia: Chegada a Fierze Estrada SH23
Chegada a Fierze Estrada SH23
Fierze

Entrada no Valbona National Park: melhores destinos para uma viagem de mota pela Albânia

O Valbone River era agora o curso de água azul turquesa que nos acompanhava (e maravilhava), com os picos nevados de Maja e Jezercit, a segunda montanha mais alta da Albânia, a espreitar-nos ao longe. Estávamos nos majestosos Alpes Albaneses, e para descrever esse sentimento só nos ocorre citar” Difficult roads often lead to beautiful destinations”. Estradas difíceis costumam levar-nos a belos destinos. É mesmo isso que a Albânia nos traz a cada novo dia em que ousamos explorá-la sem reservas.

Valbona National Park
Rio Valbona, Valbona National Park
Viagem de mota pela Albânia Valbona National Park
Viagem de mota pela Albânia: Valbona National Park
Valbona National Park
As montanhas no Valbona National Park

Mas apesar de estarmos em Valbona, e a menos de 10 km do final da estrada (aqui a estrada termina quando encontra a montanha, obrigando a retornar pelo mesmo caminho), estávamos longe de imaginar que ainda nos esperaria uma etapa de enduro com uma mota de touring.

Reservámos online no dia anterior o Bujtina Malaj, um chalé de montanha pitoresco e no coração da floresta albanesa, mas para lá chegar há uma subida de 1km sem pavimento. Para mim em modo de caminhada, para o João em modo ABS desligado, e em pé na mota. No final, depois de um dia por tão maus caminhos, o João baixa-se para ver o estado dos nossos Michelin Pilot Road4GT. Mais de 4000km desde a saída e não apresentam sinais de desgate. Estamos na bela Albânia e todos os dias são desafiantes e fascinantes.

Bujtina Malaj
Bujtina Malaj
Viagem de mota pela Albânia Bujtina Malaj
Viagem de mota pela Albânia: Acesso ao Bujtina Malaj
Alpes Albaneses, Valbona National Park Viagem de mota pela Albânia
Alpes Albaneses, Valbona National Park

🛏️ Alojamento em Valbona

Dia 9 Valbona –  Theth 200 km ( 5 horas de condução em estradas secundárias)

Amanhecemos no final da única estrada que percorre o Valbona National Park. São as montanhas cobertas de neve de Maja Jezerce que nos cumprimentam pela manhã, da janela do nosso chalet de montanha. A partir dali, e para as atravessar, existe apenas um longo trilho pedestre até Theth, do outro lado do parque natural. Para lá seguimos, mas não pela rota mais directa. Primeiro ainda temos de ir navegar de RT. Isso mesmo: navegar!

Valbona National Park
Valbona National Park

Pelas águas de cor verde esmeralda do rio Drin, é possível fazer uma das viagens mais belas do mundo: a travessia de ferry entre Fierze e Koman, pelo Komani Lake e os seus enormes desfiladeiros rochosos.

Foram 3 horas de barco entre as enormes montanhas dos Alpes Albaneses. Um cenário idílico digno de uma filme do Senhor dos Anéis, que nos fica gravado na memória como um dos mais belos lugares que tivemos oportunidade de contemplar.

Para mais informações práticas sobre a travessia de ferry do lago Koman consulte aqui o nosso artigo já publicado: Viagem de ferry pelo Lago Komani, uma das mais belas travessias do mundo | Norte da Albânia

Foz do rio Valbona
Foz do rio Valbona
Berisha Ferry, Travessia do Komani Lake Viagem de mota pela Albânia
Berisha Ferry, Travessia do Komani Lake
Komani Lake
Komani Lake
Travessia do Komani Lake
Alpes Albaneses, Komani Lake
Komani Lake Viagem de mota pela Albânia
Travessia do Komani Lake no Berisha Ferry

🛏️ Alojamento em Theth

O alojamento Boga Alpine Resort, foi o eleito para pernoitar na região. Na data da nossa viagem o acesso ao centro da aldeia de Theth era feito através de um percurso fora de estrada não recomendável ao nosso tipo de mota. Portanto, pernoitámos nos arredores.

Boga Alpine Resort Viagem de mota pela Albânia
Boga Alpine Resort

Dia 10  Theth  –  Shkoder – Grabom 150 km ( 4 horas de condução em estradas secundárias)

Este será o dia de dizer adeus à nossa viagem de mota pela Albânia e passar a fronteira para Montenegro. Levamos a Albânia na memória de uma das viagens mais surpreendentes e desafiantes que fizéramos. Estamos finalmente a transitar para Montenegro, tal como dissemos quando saímos de Itália.  Agora por aqui, outras aventuras nos aguardam explorando o Durmitor National Park e o Tara Canyon.

São 7 horas da manhã e as montanhas do Theth National Park já brilham iluminadas por um sol radioso. Das janelas do nosso quarto, no Boga Alpine Resort, espreitamos a nossa mota que dormiu ao nosso lado. Tão pertinho de nós que posso jurar que dormi com os pés quentinhos com o calor do boxer.

Estão 11 graus na rua, mas tomamos o pequeno almoço numa mesa da esplanada ao sol com vista para as montanhas. – Típico albanês? Pergunta o rapaz que nos serve. Estamos por aqui há 9 dias e ainda não sabemos o que isso representa. Parece que muda em cada região, mas venha lá o típico albanês. Pão, panquecas, tomate, compotas, pepino, ovos mexidos, queijo e enchidos e estamos prontos para seguir viagem.

Pela aldeia, encontramos varas de porcos e manadas de vacas loucas que circulam livremente pelos caminhos. Provavelmente, vasculhando o lixo doméstico dos contentores que por ali se encontram tombados.

Viagem de mota pela Albânia Boga Alpine Resort
Viagem de mota pela Albânia e a estadia no Boga Alpine Resort
Theth
Theth, Estrada SH21
Theth National Park
Theth National Park

E, se no dia anterior, depois da saída do ferry do Komani Lake encontrámos a pior estrada da Albânia, hoje encontrámos a melhor! Este é um país de grandes contrastes.

Grabom Serpentine, a melhor estrada para percorrer de mota pela Albânia

Deixamos Skoder, e o seu imenso lago com o mesmo nome, para trás e entramos novamente nas montanhas albanesas com destino à última fronteira no interior norte do país. Grabom é a estrada de nome sonante que já muitas vezes ouvíramos falar quando de melhores estradas para andar de mota se citam. Mas depois de vários dias no país a expectativa não era elevada.

Dissemos que pela Albânia engenheiros ainda não tinham chegado para as obras de construção de estradas. Pedimos desculpa por vos induzir em erro! Corrigimos agora: chegaram sim! Mas começaram agora no norte e demorarão ainda um bocadinho até tratar de chegar a sul.

De pavimento novo, geometria bem desenhada, com mil e uma curvas largas e permissivas, a despedida da Albânia foi em modo desforra nesta pérola do asfalto que é a passagem de montanha de Grabom!

É a estrada SH20 que serpenteia nas montanhas dos alpes albaneses, por entre paredes de rochas que tocam o céu. Aqui não há gravilhas, abatimentos, água, lama, pedras ou areias na estrada. Tudo está perfeito. De vez em quando, é o trânsito da passagem de rebanhos de cabras e ovelhas que nos faz parar. Mas somos nós que as incomodamos e não o contrário. Aquilo é a terra delas esqueceram-se? E nós só temos o privilégio de estar de passagem. Chegamos à fronteira com Montenegro, e agora era outro país que iríamos explorar com a mesma determinação.

Estrada SH20 Grabom Serpentine, Norte da Albânia
Estrada SH20 Grabom Serpentine, Norte da Albânia
Viagem de mota pela Albânia Alpes Albaneses
Viagem de mota pela Albânia e os Alpes Albaneses

🛏️ Alojamento em Shkoder

E se pretender incluir uma estadia em Shkoder numa viagem de mota pela Albânia eis um excelente alojamento com restaurante que deixamos como sugestão.

Mapa do Percurso de viagem de mota pela Albânia

Para consultar o mapa em detalhe, clique sobre ele ou utilize o canto superior direito para abrir directamente na página do Google Maps. Poderá fazer o zoom necessário para ver a rota em pormenor ou exportar para o GPS como preferir. Clicando no canto superior esquerdo, é também possível ler a legenda do mapa em detalhe. Pretende utilizar este mapa no seu aparelho de navegação e não sabe como o fazer? Consulte aqui o nosso artigo já publicado.

  • Locais de interesse histórico e natural
  • Restaurante
  • Alojamento

 

 

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